"Solo": uma nova indústria ou uma nova Anitta?

Pouco mais de um mês atrás a cantora Anitta liberou o EP “Solo”, um Extended Play com três músicas, acompanhadas de videoclipes, em línguas diferentes: “Veneno”, a aposta em espanhol para o novo mercado em que a brasileira está se inserindo, “Goals”, um trabalho produzido pelo vencedor de 11 prêmios Grammy e dono de hits gigantescos como “Happy”, Pharrel Williams, e “Não perco meu tempo”, música certeira para o momento de alta do pop brasileiro que a própria ajudou a construir.

A nível de reconhecimento internacional, a Billboard estadunidense disse que foi um “EP trilíngue épico” e que “representa a evolução de sua carreira”. No mesmo país, o rosto de Anitta esteve novamente em locais de divulgação de grande alcance, como telões da Times Square. Outros sites, como o Idolator, ainda a chamaram de “lenda trilíngue”.

No entanto, o que quero abordar nesse texto não é necessariamente “Solo” em si, mas sim tudo o que ele representa para a carreira da carioca. O ponto que trago é que, pode ser exagero, mas Anitta é provavelmente a artista que mais tem sabido trabalhar sua carreira frente aos novos tempos da indústria fonográfica.

Calma, eu já explico o porquê.

Não é surpresa para ninguém que o uso da internet continua mudando drasticamente a maneira como consumimos música. Álbuns não são vendidos com tanta facilidade e, embora exista uma grande tradição e magia em torno do lançamento de discos completos, as gravadoras perceberam que alguns investimentos podem não valer a pena. É horrível pensar que no fim das contas o sistema capitalista faça tudo girar em torno do retorno monetário, mas é uma estrutura muito maior do que os artistas que admiramos.

“Ah mas tem muito cantor lançando álbum e fazendo muito sucesso com isso”, sim, isso é inegável. Porém, não podemos nivelar artistas como Adele, Beyoncé, Katy Perry – e por aí vão outros exemplos – com pessoas que têm carreiras regionais ou estão iniciando sua caminhada. Vale lembrar que mesmo para aqueles que estão no mainstream tem sido difícil a inserção nessa nova configuração do mercado. Sem contar que, PASMEM, o mundo da música não se resume só à cultura norte-americana.

Me lembro quando começaram os lançamentos de clipes verticais, principalmente por artistas latino-americanos. Logo de cara associei o novo formato a uma tendência de adaptação. Para vocês terem noção, um estudo liberado em setembro deste ano revela que em 2025 provavelmente 78% das conexões móveis da América Latina se darão por smartphone. A pesquisa também revela que 56% do uso atual da internet móvel na região é para consumo de vídeos.

E onde entra a Anitta nisso tudo?

Embora seja a “reina del pop en Brasil”, como anuncia o La Voz México, onde a cantora trabalha como jurada, Anitta ainda é uma artista em ascensão internacionalmente. É uma carreira em construção que pode nos lembrar a Shakira de “Donde Estan los Ladrones?”, de 1998. Uma cantora de nome único com um nicho de mercado já consolidado, recordes em seu país de origem, grande número de fãs fiéis, nome conhecido em diversos país latino-americanos e europeus e que finalmente se projeta mundialmente.

Não vivi o fim do século passado, mas acredito que o sucesso internacional e estrondoso de canções como “Estoy Aqui” e “Ciega Sordomuda” foram mais orgânicos, muito é claro pela questão da barreira linguística que as canções de estreia de Anitta enfrentaram fora do Brasil. Gostaria muito de ter ido à Argentina em 2013 e escutar “Show das Poderosas” como escuto “Vai Malandra” aqui no Chile, mas era uma outra realidade.  O contexto mundial da música pelo qual estamos passando agora permite que ritmos fora da “hegemonia pop” dos Estados Unidos finalmente tenham a devida atenção que merecem, mas isso é assunto para outro texto.

Com isso não quero dizer que Anitta tem pretensão de ser uma nova Shakira ou muito menos que devemos comparar a duas enquanto artistas, mas sim que a brasileira passa por um momento de crescimento semelhante ao da colombiana. É claro que cada uma com suas individualidades artísticas – uma tem raiz no rock e outra no funk. Inclusive, se alguma de vocês duas estiverem lendo isso, por favor façam essa parceria acontecer.

Mas é aqui que quero dar um destaque para a intérprete do “SOLO”: a inovação em seu gerenciamento de carreira.

Não sei quais eram as pretensões da cantora em 2015 após o lançamento de “Bang”, álbum e clipe que considero como marcos importantes para a música brasileira tanto por impulsionar o pop no Brasil quanto por incentivar músicas ao melhor uso de conteúdo audiovisual, mas a cada passo novo vemos uma conquista valiosa. A própria Anitta diz que o segredo está em “não ser previsível”, e de fato me surpreendo com a cada novo lançamento da cantora.

Começando pelo lançamento de “Paradinha”, temos algo que chamo de “a quarta era de Anitta”. Cada novo lançamento gerou ansiedade, tanto por ser uma novidade quanto por uma certa “torcida” da representação internacional da brasileira. Mas isso obviamente iria saturar em algum momento. Teria sido “fácil” trabalhar em um quarto álbum, experimentar novas sonoridades, produzir clipes e todas aquelas coisas que estamos acostumados com os clássicos processos de lançamentos na música pop. Porém, a cantora foi além e entendeu, propositalmente ou não, as transformações do mercado.

Acredito que algum outro artista no mundo tenha lançado sequencialmente música e clipes, mas nenhum deles, que eu tenha conhecimento, tomou isso como estratégia e o denominou como um projeto. Chegamos ao projeto CheckMate.

E o que tem de especial nisso? Não poderia ser apenas organizado como mais um disco?

Sim e sim. Mas Anitta teve o fator surpresa e utilizou isso não apenas para dar mais conteúdo com sabor de “novidade” para seu público já fiel como também para expandir seus horizontes artísticos. Ao lançar um álbum o fator novo seria o álbum em si, o consumo se daria em cima dele de uma vez. Mas, ao montar um projeto com música individuais, ela traz o fator novo a cada mês com um distinções tanto imagética quanto sonoras. É como comer uma caixa de bombons: talvez seja melhor não a comer toda de uma vez se você pode dividi-la em vários momentos e apreciar o sabor individual de cada doce.

E não apenas essa estratégia de lançamento deve ser destaca como também a utilização das plataformas de streaming. Ter o lançamento tanto da música quanto do vídeo une aplicativos como o Spotify (com mais de 170 milhões de usuários ativos por mês) e o YouTube (segunda maior rede social do mundo com mais de 1,8 bilhões de usuários ativos por mês). Creio que não é necessário retratar aqui a qualidade de cada um dos trabalhos, muito menos o sucesso, uma vez que só o projeto CheckMate conseguiu mais de 1,3 bilhão de streamings.

E depois de tamanho sucesso, um novo álbum? Era o que “Indecente” sinalizava, mas não. Seu lançamento isolado, e sucesso moderado, pode ser o exemplo de que a estratégia de um projeto chama mais atenção do que apenas a liberação de uma canção como single. Muito embora a produção por trás do trabalho tenha sido louvável. O mesmo acaba se repetindo com “Medicina”.

No entanto entramos em um mérito que a própria Anitta assumiu em respostas a uma matéria do G1 que falava sobre o desempenhos de suas novas canções internacionalmente. É uma questão de construção de mercado. As novas músicas em espanhol buscavam um público específico que ela ainda estava conquistando e “deixavam de lado” seu público de origem (não incluo aqui os fãs que acompanham fielmente seu trabalho, mas sim o Brasil como um todo).

Enfim, todos esses lançamentos e estratégias de marketing tem seu término de ciclo em “Solo”. A quarta era de Anitta termina com um checkmate que traz não apenas o fator novo para seu trabalho como também uma identidade e inovação de conteúdo. Por exemplo, de fato desconheço qualquer artistas que tenha usado essa questão de linguagem tão bem quanto ela. Outras como Britney Spears e Shakira já cantaram mais de três idiomas em seus álbuns, mas nenhuma usou como marca registrada. E como isso poderia ser melhor para uma artista que está em ascensão internacionalmente? Mais uma sacada genial!

Mas porque uma quarta era? Digo isso porque vejo que desde o lançamento de paradinha, que poderíamos considerar um “first single”, Anitta passou por um processo de internacionalização, de novos rumos e recordes em sua carreira. Sem contarmos as parcerias e com o Ep “Solo”, a cantora lançou um total de 10 músicas em um período de um ano e sete meses.  A última era de Lady Gaga, por exemplo, durou, entre lançamento de disco e turnê, cerca de 2 anos e 3 meses, isso tudo com um álbum que teve 11 canções.

E porque considerar “Solo” o fim dessa quarta era? Não só porque as três músicas do EP me soam muito como aquelas que terminam um álbum tradicional de música pop, mas também por fechar um ciclo de internacionalização que citei. Apresenta uma artista trilíngue com hits em sua terra natal, visualizações impressionantes a nível mundial, conhecida por boa parte do cenário musical da América, vencedora de prêmios também fora do continente americano, enfim, atinge com esse ciclo novos horizontes e já projeta sua imagem para o próximo passo. Anitta esteve em alta durante todo esse tempo, em alguns momentos mais no topo do que em outros, mas ela não deixou de ser assunto.

Inclusive montei um “álbum” com as músicas dessa quarta era que vocês podem ouvir aqui (a versão deluxe começa em “Jacuzzi”). 

Ainda possuía alguns ressentimentos com relação a Anitta enquanto vida pública pelas questões que cercaram as eleições em 2018 no Brasil e seu “não posicionamento”, que depois se transformou até em desafio. Mas creio que estamos nos construindo todos os dias enquanto pessoas e que agora ela provavelmente tenha entendido a importância de sua voz. Tanto é que afirmou isso em uma de suas entrevistas recentes aqui no Chile. Aproveito esse espaço para o assunto porque passamos por momentos delicados politicamente e devemos perceber que somos todos seres políticos apenas pelo fato de existirmos, ou vocês acham mesmo que uma mulher dizendo “vocês pensaram que eu não ia rebolar a minha bunda hoje?” é interessante para o discurso conservador?

O que se pode concluir? É que você ainda vai ouvir muito o nome de Anitta, gostando ou não. Inclusive, nem vai ter muito como fugir, já que não vai tocar só aqui no Brasil. Inclusive, isso ficou ainda mais claro quando vim para Santiago. Aqui, uma menina chilena me perguntou se a Anitta era famosa no Brasil, eu fiquei como quem diz “O que??”, mas depois interpretei isso de outra maneira. Creio que a fama da cantora com suas músicas em espanhol tem crescido tanto nos países hispanohablantes que eles a concebem como uma artista genuinamente dessa área.

Sinceramente, não sei o que esperar dos próximos passos de sua carreira, mas acredito que fui ensinado por ela que sempre existe uma maneira estratégica e artística de surpreender. Seja no instagram da rainha do pop, seja fazendo shows nesse lindo país com mais de 200 milhões de habitantes, Anitta vai ser para sempre um marco na indústria cultural brasileira.

Ps: Os últimos meses têm sido difíceis, mas pretendo voltar a publicar alguns textos, então vocês podem ir nas minhas redes sociais e sugerir temas <3