Como Dua Lipa e The Weeknd estão fazendo duas das melhores e mais consistentes eras da história no meio de uma pandemia?

Como Dua Lipa e The Weeknd estão fazendo duas das melhores e mais consistentes eras da história no meio de uma pandemia?

A pandemia afetou drasticamente a indústria da música. Billie Eilish teve que cancelar toda a sua turnê, assim como Taylor Swift com a “Lover Fest“. Ambas passariam pelo Brasil. Taylor ainda lançou dois álbuns que ninguém esperava com uma sonoridade surpreendente (levando um AOTY no Grammy inclusive). Rihanna e Adele que poderiam voltar em 2020, ainda não deram o ar da graça. Colocando tudo na balança, o resultado é negativo e não há argumentos contra isso.

Mas e aqueles que já tinham começado uma era, o que eles poderiam fazer? Lady Gaga tinha um planejamento pesadíssimo para o “Chromatica“, inclusive com performance surpresa no Coachella e coisas que provavelmente nunca saberemos. Lead single vazado sem nem um anúncio oficial e o álbum adiado em mais de um mês. Tudo começou aos trancos e barrancos e tudo indica que a era já se encerrou, sem turnê e com biscoitos. Sim, biscoitos.

Quem já tinha uma agenda para – supostamente – cumprir tinha duas opções básicas: encurtar a era e quem sabe lançar outro disco quando a pandemia cessasse (podendo fazer uma turnê dupla ou simplesmente fingir que esse primeiro álbum não existiu); ou esticar a divulgação o MÁXIMO POSSÍVEL, com uma era que durasse dois ou até três anos.

Dua Lipa e The Weeknd se viram nessa situação ao começarem a divulgar novos trabalhos logo quando o novo coronavírus surgia. “Don’t Start Now” saiu no fim de outubro, enquanto a dobradinha “Heartless” e “Blinding Lights” veio ao mundo no fim de novembro.

O lead single do “After Hours” até atingiu o topo da Billboard Hot 100 em sua primeira semana completa de contabilização, mas despencou para #17 por causa da invasão natalina que estamos cada vez mais acostumados. Na época, esse inclusive foi o recorde de maior queda da história do #1, recorde quebrado um ano depois por “Willow” de Taylor Swift, pelo mesmíssimo motivo. “Heartless” definitivamente não é a protagonista da era do Abel e eu e você sabemos muito bem disso.

Falemos de “Don’t Start Now” e “Blinding Lights“. As músicas começaram com um desempenho ok, nada de estonteante. Mas o que vieram a ser nas semanas seguintes foi resultado de um investimento a longo prazo e conhecimento claro sobre como a indústria da música funciona nessa década. Mérito dos artistas e sobretudo das gravadoras: Warner e Republic.

É incrível como tanto o “Future Nostalgia” quanto o “After Hours” têm trajetórias bastante parecidas e resultados também semelhantes. Estamos falando de uma artista britânica pop ainda em seu segundo álbum e de um cantor canadense R&B já com uma carreira bastante estabelecida. Pesos diferentes, mas finais igualmente felizes.

Pois bem, agora vamos ao que interessa: como esses benditos conseguiram se sobressair num período em que não podíamos (e ainda não podemos) fazer quase funking nada?

>>> Princesa do Brasil: Dua Lipa se consagra como a artista gringa mais bem-sucedida atualmente no país

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE

Dua e Abel começaram suas eras com aquele velho modelo tradicional: anúncio do lead single, alguns dias de expectativa com capas, teasers, fotos promocionais, etc. Isso é gostoso. É aquela semaninha que todo mundo fala sobre isso. Sobre expectativas, sobre como será essa nova era. E o mais importante: sem comprometimento com um álbum.

Claro que todo mundo sabia que as músicas eram carros-chefe de novos projetos, mas não deram uma de Beyoncé e soltaram tudo de umas vez, ou mesmo Ariana Grande, anunciando o “Positions” numa semana, lançando o lead na outra e o álbum inteiro na seguinte. Pode funcionar? Claro que pode. Mas é perigoso e o hype passa mais rápido. Corre risco de ser imemorável se mal planejado. É como uma série que lança uma temporada toda em um dia ou tem episódios semanais. Qual se sustenta mais tempo? Qual é a mais comentada e teorizada?

E nem esqueçamos de já citar como essas eras tem identidade própria, um organismo vivo. Toda aparição, toda performance tem um contexto, uma finalidade e faz parte de mais uma etapa de uma narrativa mega interessante. Vamos voltar a falar mais sobre isso.

COMPROMETIMENTO COM A ERA

Quantos artistas nos últimos anos lançaram um álbum, fizeram uns posts aqui e ali, “divulgaram” dois ou três singles e ficou por isso. É de dar raiva e você tem todo o direito de ficar chateado. É aí que os fãs de Dua Lipa e The Weeknd não têm o que reclamar. Eles gostam de trabalhar e como gostam.

Durante mais de um ano, não estamos ficando sem novidades deles por muito tempo. Se não é single novo é performance, se não é performance é uma participação em música de outro artista, se não é isso é pelo menos um remix pra manter a era quente. Afinal, a pandemia ainda não acabou e tudo segue nebuloso. É preciso se manter na boca do povo.

E com Abel e Dua não importa se é um clipe ou uma performance num programa de TV. Eles estão lá, de corpo, alma e outra coisa que ainda não conseguimos identificar. O canadense com seu tradicional terno vermelho e a britânica no puro luxo, misturando o novo e o antigo de uma forma primorosa.

ESCOLHAS CORRETAS E DIVULGAÇÃO EM DIA

Com a pandemia, vimos quais equipes realmente estão preparadas para encarar uma nova realidade. Apesar de todos os empecilhos e adversidades, os cantores botaram o pé no chão, lançaram seus álbuns e tiveram uma divulgação pontual.

The Weeknd escolheu fazer um álbum visual em construção. Ao invés de lançar um filme como o “Lemonade“, ele fez a sábia escolha de pegar cada música (sendo single ou não) e ir escrevendo uma interessante história sobre como pessoas públicas são obcecadas pela perfeição, muito por causa da pressão da mídia. E isso não se limita aos clipes, tendo conexão também com performances importantes, como a do AMAs. Já são 15 meses contando essa história e tudo indica que novos capítulos estão por vir.

Dua Lipa é sinônimo de persistência. Mesmo com “Don’t Start Now” já sendo um sucesso, a bichinha divulgou no Reino Unido, viajou para os Estados Unidos e foi até na Coreia do Sul (!!!) para divulgar o single. O resultado? Após alguns meses do lançamento, a canção se tornou um dos maiores hits do momento e depois um dos maiores sucessos da era do streaming. Até no Brasil, graças a um empurrãozão de Manu Gavassi, a música foi um tremendo sucesso, perdurando até hoje.

Dois momentos se concretizaram nos ápices das eras de Dua Lipa e The Weeknd. A primeira foi o show virtual “Studio 2054”, que foi um sucesso estrondoso mesmo sendo pago e trouxe artistas de peso como Kylie Minogue e Elton John. Já o “After Hours” teve simplesmente um Super Bowl para chamar de seu. Weeknd conseguiu transformar uma das maiores honras que um artista pode ter, em “apenas” um pedaço de sua era. Ou seja, Abelzinho moldou o Super Bowl, e não ao contrário como geralmente acontece.

SONORIDADES FRESCAS E CATIVANTES

Eu confesso. Desde os teasers de “Don’t Start Now“, eu já estava surtando e vendo que aquilo seria histórico. Para “Blinding Lights“, não aceitava de jeito nenhum que “Heartless” estava tendo mais destaque. Felizmente, tudo tem seu tempo.

Da incrível “Physical” até a arrepiante “In Your Eyes”, a dupla nos entregou um trabalho que estávamos precisando. Apesar de não inaugurarem a volta do synth-pop, new wave e disco pop, Weeknd e Lipa conseguiram misturar a nostalgia, como o título do próprio álbum fala por si, a algo que soava totalmente inédito para uma nova geração. Eu duvido que você não ache pelo menos uma música que ache excepcional em cada um dos trabalhos. As opiniões da crítica e do público falam por si.

E a escolha e timing dos singles? Na era do streaming, lançar quartos ou quintos singles é algo que chega a ser perigoso. A música já está há meses disponíveis e quem queria escutar já escutou (e até já enjoou). Como dar um refresh nessas músicas?

Levitating” foi o quinto single da era “Future Nostalgia“. Dua Lipa apostou num remix com o rapper DaBaby, estouradíssimo nos Estados Unidos e que já havia experimentado do pop no hit “My Oh My“, com Camila Cabello. Os fãs da Dua ficaram um pouco relutantes no início, já que a original era uma fan favorite e já impecável. Calma e paciente como era Jesus, Dua aguardou, fez seu jabazinho, colocou nas playlists e pronto. Três meses depois, a canção era um dos maiores sucessos do momento, repetindo o feito de “Don’t Start Now” e deixando “New Rules” pra trás.

O que falar também de “Save Your Tears“? Outra canção muito amada pelos fãs que demorou a ser single, mas foi. E a espera valeu MUITO a pena. A canção estava em seu melhor momento durante o halftime show e foi o empurrãozinho final para mais um smash hit de The Weeknd. O clipe então… um verdadeiro tapa na cara. Uma experiência visual que foi sendo construída por meses e teve seu momento chave ali. Quem não viu, deveria muito.

RELANÇAMENTOS E NOVAS VERSÕES

O que já está bom pode melhorar sim. Pouquíssimo tempo depois de disponibilizar o “After Hours” nas plataformas digitais, The Weeknd já lançou uma versão deluxe do álbum com três músicas inéditas. A capa é horrível, mas as músicas são tão masterpieces quanto o resto do trabalho, apesar de que foram tratadas apenas como um presente para os fãs mesmo.

Dua Lipa foi bem mais além. Primeiro, ela lançou uma versão totalmente refeita pelo olhar da DJ The Blessed Madonna, chamado de “Club Future Nostalgia“. Apesar da crítica ter simplesmente amado, o público torceu bastante o nariz para os “bate panela” da produtora, gerando inclusive váaaarios memes nas redes sociais. Mas é inegável que Dua tentou nos imergir ainda mais dentro de um universo de uma balada, mesmo no meio de uma pandemia. Uma verdadeira válvula de escape para momentos sombrios.

Não satisfeita, recebemos uma terceira versão, chamada de “Future Nostalgia: The Moonlight Edition“. Dua repetiu a estratégia do seu debute, inserindo parcerias já lançadas e algumas músicas inédita, incluindo o atual single “We’re Good“.

Aparentemente, qualquer pessoa com curso de informática básico consegue entrar no iCloud da menina Dua. Várias canções não lançadas do “FN” já estão disponíveis na internet e, inclusive, ainda estão vazando coisas inéditas até hoje. Ou seja, Lipa tem material para fazer uma quarta versão do álbum, quem sabe o aguardado “Side B“, incluindo fan favorites como “Love is Religion” e “Cherry“.

GRAMMY: UM CASO DELICADO

Quando os indicados ao Grammy 2021 foram anunciados, em novembro, tivemos uma ausência chocante entre os indicados: The Weeknd. O cantor não recebeu uma indicação sequer, sendo que ele era um dos francos favoritos a vencer várias categorias da premiação.

Abel não ficou calado e demonstrou sua indignação nas redes sociais, inclusive incluindo o gramofone dourado no clipe de “In Your Eyes” de um jeito bem debochado. O mundo da música abraçou o artista e, pessoas que nem eram tão fãs dele, começaram a acompanhar mais o trabalho do músico. Ele inclusive disse que nem ele, nem ninguém da sua gravadora irá ao menos enviar seus trabalhos para nomeações nos próximos anos.

Dua, foi a queridinha da Academia, pelo menos nas indicações. Ela descobriu ao vivo que tinha sido nomeada e se emocionou. Foram cinco indicações e “apenas” uma vitória, o de Best Pop Vocal Album, pelo “Future Nostalgia“. O AOTY ficou com o “Folklore” da Taylor Swift, mas muita gente não concordou…

E AGORA?

The Weeknd e Dua Lipa foram alguns dos únicos artistas que já reagendaram suas turnês. A britânica começa a “Future Nostalgia Tour” em setembro, no Reino Unido. Atualmente, apenas a leg europeia foi anunciada. Já a “After Hours Tour” começa apenas em 2022, no Canadá. Abel tem shows agendados o ano inteirinho, isso apenas na América do Norte e Europa.

Há expectativas claras que ambas as turnês cheguem ao Brasil em algum momento e, pra isso, as eras tem que perdurar, no mínimo, até 2023. Ou seja, ainda há muuuuuuuuita coisa para se esperar de “After Hours” e “Future Nostalgia em 2021 e 2022.

>>> The Weeknd revela que tem uma grande novidade para a era “After Hours”

>>> Curta o PFBR no Facebook

Siga o PFBR no Twitter <<<