#PFBReview (Especial) – 1984, Material Girl e a inauguração do universo pop como conhecemos em "Like a Virgin"

Continuando exatamente de onde paramos com o álbum anterior, é hora de analisar um dos lançamentos mais importantes e controversos da carreira da Madonna, e também um divisor de águas na cultura popular dos anos oitenta, Like a Virgin. Mesmo tendo se estabelecido como uma “disco diva” já em seu debut, através de hits como Lucky Star e Holiday, a impetuosidade e criatividade da Rainha do Pop começou a aflorar verdadeiramente em seu segundo álbum, que foi o precursor de uma das personagens mais polêmicas e desafiadoras da música dos últimos trinta anos.

Like a Virgin, como a própria já afirmou, veio como a solidificação de sua carreira artística, e desde os estágios iniciais Madonna precisou refutar opiniões masculinas contrárias dentro de sua própria gravadora para gravar o álbum que queria. Com seu disco autointitulado ela aprendeu algumas lições importantes, como “não poder confiar em homens”, e insistiu em escolher com quem colaborar desta vez: o hitmaker Stephen Bray e ninguém menos que seu ídolo e guitarrista do Chic, Nile Rodgers. A cantora também reconheceu certa fraqueza em seu álbum anterior, e garantiu que desta vez não houvesse faixas “tapa-buraco”.

Material Girl é a primeira música, embora não tenha sido o hit abre-alas da era. Como grande parte do LP a faixa foi produzida por Nile Rodgers e cai bem no meio de batidas fortes e um arranjo de sintetizadores decorado por uma voz robotizada, que repete o vicioso hookliving in a material world”. Através da letra e do videoclipe, que faz referência à icônica performance solo de Marilyn Monroe no longa Gentlemen Prefer Blondes, Madonna incorpora uma figura feminina extremamente materialista, que era uma representação parte real, parte fictícia de sua vida no momento. A canção, que atingiu a vice-liderança das paradas americanas e acabou se tornando um dos singles mais populares da artista, garantiu também a Madonna um de seus mais famosos apelidos, gostando ela ou não.

“Garotos vêm e garotos vão, mas está tudo bem. A experiência me fez rica, e agora eles estão atrás de mim.”

Angel é uma das primeiras canções desenvolvidas para o projeto e um dos singles do mesmo. Dando genuínas risadas Madonna faz a linha romântica e “angeliza” uma figura masculina, que é a causadora de seu júbilo e também a responsável por sua salvação. Angel pode não ser tão bem lembrada quanto outros hits maiores tanto pela performer quanto por seus fãs, mas continua uma boa faixa techno-pop sem grandes pretensões que, se não se destaca durante a era imperial da artista, ao menos entretém o ouvinte. Like a Virgin é a faixa que intitula o registro e o clássico imutável hoje conhecido por todos. Escrita por Billy Steinberg e Tom Kelly e inspirada pelas experiências de Steinberg com o romance, a música foi inicialmente considerada “estúpida” por Madonna e Rodgers. Curiosamente, dias depois de ouvirem-na pela primeira vez eles ainda não tinham conseguido tirar a melodia da cabeça, e decidiram, para o bem do pop e do mundo, gravar a demo. As letras da canção são ambíguas e retratam basicamente a descoberta do amor, podendo ser interpretadas das mais variadas maneiras por pessoas diferentes. Virgin é nada mais, nada menos que um dos diamantes brutos da cultura pop. Seu videoclipe e performances (em especial uma infame durante o primeiro VMA e outra envolvendo beijos com Britney Spears e Christina Aguilera) se tornaram inspiração para inúmeros artistas contemporâneos e ajudaram a quebrar paradigmas que antes moldavam e restringiam o sexo feminino em geral. Diva revolucionária é outro nível, né, mores?

“Eu sobrevivi aos maus momentos, de alguma forma eu sobrevivi. Não sabia quão perdida estava até encontrar você…”

Over and Over é uma das pérolas anônimas do álbum, acompanhada de sintetizadores, percussão e um coral perto do fim, em que Madonna se mostra inabalável com relação a decepções e às críticas que já no começo recebia. Love Don’t Live Here Anymore é a quinta faixa, e uma regravação do hit de 1978 do grupo Royce. Esta foi a primeira vez que Madge gravou tudo ao vivo acompanhada de uma banda, apoiada em guitarras acústicas e mostrando o lado mais soul de sua voz. O resultado final é incrível, tanto é que esta versão foi reaproveitada como single na coletânea de baladas Something to Remember (1995), mas não encontrou o sucesso merecido nos charts.

“O amor não vive aqui mais, só o vazio e as memórias do que tínhamos antes…”

And you can dance!

Apesar dos pesares, Into the Groove só começou a aparecer no álbum após seu relançamento na Europa em 1985. Escrita pela própria Madonna e situada na pista de dança, a canção soa como uma versão aperfeiçoada dos hits do disco anterior, com os vocais duplicados da cantora ditando o ritmo. Também usada na trilha sonora do filme Procura-se Susan Desesperadamente, que ela estrela, Groove serviu como um single de alcance global, e foi inclusa mais recentemente na turnê Sticky & Sweet, de 2008. Dress You Up foi o último acréscimo ao LP, e mesmo que Rodgers tenha rejeitado a composição no começo, Madonna reconheceu de cara o que seria um de seus incontáveis hits e insistiu na gravação da canção, que passou a incluir um solo de guitarra e também um coral. A letra usa inteligentemente a moda como uma metáfora para o sexo, comparando o amor a uma vestimenta. É uma pena que a deliciosa e atrevida canção não tenha um videoclipe oficial. Shoo-Bee-Doo pertence ao gênero doo-wop e na época era um passo distante do que todos estavam acostumados a esperar de Madonna. A baladinha romântica e ingênua evoca o melhor dos gloriosos tempos da Mowtown Music, e de quebra ainda traz Lenny Pickett do TOP tocando o saxofone. Simplesmente esplêndida.

“Eu posso ver que você foi machucado antes, mas não as compare a mim. Eu posso te dar muito mais, você sabe que é tudo o que vejo.”

Pretender é uma toada synth-pop esquecível e a previsão de um coração inseguro prestes a ser partido, enquanto a faixa que termina o disco (Stay) é outra canção de amor clássica da Madonna, que como Into the Groove faz uso de vocais duplicados e um som que remete a mãos batendo em microfones, com um contagiante “scoop, scoop, scoop, scoop, scoodly be-bop” para finalizar. Like a Virgin termina com o pop chiclete em sua melhor forma.

Com inspirações tanto dance quanto rock, é difícil mesurar todo o impacto causado com o lançamento deste arriscado projeto. De sucesso abrangente e impacto absurdamente maior que o primeiro, a segunda empreitada da Rainha do Pop é um clássico álbum dance que se encaixa perfeitamente no contexto e na época em que foi produzido. É com ele que Madonna se torna o símbolo sexual e gay que fez muitos extremistas perderem a cabeça nos anos que se seguiriam, e incitando o amor (e também ódio) daqueles que a ouviam e se deparavam com suas representações visuais, ela abre discussões das mais diversificadas, que vão desde sexismo exacerbado na indústria à cegueira e imposição religiosa. Um dos mais famosos exemplos disso é a capa do álbum, que não deixa explícito se é a Virgem Maria representada ou apenas uma prostituta.

O desejo de Madonna era que as mulheres fossem exatamente o que queriam ser, sendo elas virginais ou não, ao contrário do que os homens poderiam idealizar. Com isso ela mesma tornou-se o objeto de desejo do público masculino, e a representante do sexo feminino que todas as mulheres almejavam ser e copiar. Like a Virgin é ao mesmo tempo o bem-sucedido pontapé de uma carreira rodeada de inúmeras polêmicas e a prova de que, sem sombra de dúvidas, Madonna não era tampouco uma “one hit wonder” nem uma cantora “comum” como as outras. Se os críticos da época ainda tinham dúvidas, Virgin mostrou que ela tinha muito mais a oferecer que apenas alguns hinos de pista de dança sem conteúdo. Até hoje, 25 milhões de cópias do disco já foram vendidas mundialmente.

Valem o play: Material Girl, Like a Virgin, Love Don’t Live Here Anymore, Into the Groove, Dress You Up, Shoo-Be-Do

Passo: Angel, Pretender

virgin

Próximo: True Blue

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