A meia-década de "Born This Way", hino progressista de Lady Gaga, e seu Impacto comercial e social

Lady Gaga saiu da era The Fame/The Fame Monster privilegiada.

Com cerca de 20 milhões de cópias vendidas em todo o globo, a loira, que havia caído nas graças do público e crítica com hits como Just Dance, Poker Face e Bad Romance, já pôde abusar de liberdade criativa e ideológica em seu segundo álbum de estúdio. Liberdade da qual, é válido lembrar, pouquíssimos artistas conseguem usufruir. É raro uma mulher se fazer ouvida em estágios ainda tão prematuros de sua carreira, mas estamos aqui para provar que, quando isso acontece, dá certo e muito: basta olhar para Stripped, de Christina Aguilera, e verão que não estamos mentindo.

Na religião da insegurança, eu devo ser eu mesma, respeitar minha juventude.

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Mas, enquanto Christina focou na sexualização de seu próprio corpo e em se reafirmar como mulher independente, Lady Gaga doou todos os seus membros e sangue a uma causa pública. Fez com que um som de identidade preta-e-branca que, na verdade, era composto inteiramente das mais vibrantes cores, fosse capaz de mover toda uma nação que, até então, não havia encontrado em seu tempo de existência na Terra uma artista pela qual morrer e com quem lutar junto.

Madonna, Cher e David Bowie vieram primeiro e a influência dos três nas lutas sociais, no showbiz e na própria Gaga é inegável, mas os jovens LGBTQ precisavam de uma artista jovem, no auge de sua popularidade e da nova geração, assim como eles, com quem se identificar. E lá estava a excêntrica “Mother Monster“, como seus fiéis fãs a apelidaram: com saltos inacessíveis a meros mortais, de perucas mirabolantes, defendendo seus ideais anti-bullying no Congresso e discursando em prol do casamento gay em qualquer oportunidade que tinha. Dando continuidade, por fim, ao que Madonna e outros artistas começaram lá nos anos 80.

Década que, inevitavelmente, deu luz ao que hoje conhecemos como Born This Way.

Tenha prudência consigo mesmo; ame seus amigos.

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A música emblemática do álbum de mesmo nome que, ao contrário de outras canções pró-minorias já gravadas na História, tratava o assunto com 100% de naturalidade e honestidade, ao invés de usar de metáforas e hipérboles chamativas, foi direto ao ponto:

“Eu sou linda do meu jeito, porque Deus não comete erros; eu estou no caminho certo, baby, eu nasci assim.”

Se os cristãos extremistas estavam lá para defender que ser gay era uma opção e uma doença que precisava ser erradicada, Gaga bradava exatamente o contrário: “eles nasceram assim, não vão mudar e, se depender de mim, vão se orgulhar até o fim disso.”

Um hit instantâneo, tanto pelo apoio de seu público alvo quanto pelo hype que Gaga recebia na época – não podemos negar, ela acabava de sair do que, até hoje, é sua era mais bem-sucedida – Born This Way disparou logo para o topo da Billboard Hot 100, se tornando o terceiro nº 1 da artista, e até agora seu último, e ainda figurou no topo de dezenas de listas ao redor do mundo. No Reino Unido se contentou com a terceira posição, mas o impacto não foi duas vezes menor.

Ter um amante diferente não é pecado.

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O pontapé do que foi o que muitos julgam até hoje como a fase mais libertina e rebelde da artista, Born This Way é um número de rock progressista que seria completamente refutado pelas rádios mainstream não fosse, é claro, a voz de Gaga, e propositalmente barulhento que remete à iconicidade e mensagem de Express Yourselfde Madonna, e consegue ser tão grandiosa e imponente quanto. Não há contra-argumentos com este unicórnio de chifres cor-de-rosa, e até os menos entusiastas de Gaga sabiam disso desde o início.

Mártir. Idealista. Revolucionária.

Mas, ao contrário do que o memorável clipe prega, Gaga não deu início a uma nova raça. Seus monstrinhos sempre estiveram lá, esperando algum tipo de chamado, só nunca tiveram, na verdade, alguém forte o suficiente para liderá-los. Pelo menos no século XXI. E, até hoje, Born This Way permanece um dos maiores hits da carreira da artista. Se Bad Romance e seus looks ultrajantes mostravam que ela não era uma popstar comum, a música, na época, garantiu de vez que Gaga tinha mais a oferecer que apenas alguns hits dançantes. Com 8 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo, a música ainda é peça indispensável na maioria esmagadora de seus shows. Sem contar que, no lado filantrópico da coisa, ainda deu início à Born This Way Foundation, instituição respeitável que se dedica a auxiliar adolescentes em crise.

Mesmo DNA. Mas nascida assim.

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Não importa se você é gay, hétero, bi, lésbica ou transgênero, Gaga nos ensinou com este single que todos podemos ser amados da forma que viemos ao mundo e não precisamos sofrer sem razão para nos enquadrar num padrão que, na verdade, nunca nos aceitará totalmente de bom grado.

Feliz aniversário, BTW, e que seu Impacto, com I maiúsculo, perdure ainda por muitos anos.