Conheça Messy Mya, o gay negro que é ouvido em "Formation", mas foi morto em 2010 pela polícia

Esta semana Beyoncé lançou um single novo – Formation – tanto em formato faixa quanto videoclipe que fala diretamente sobre o movimento #BlackLivesMatter. Que, traduzido para o português, significa exatamente “as vidas dos negros importam”.

É de conhecimento público que a polícia, seja ela onde for, não é muito fã das periferias, e quem paga o pato, em determinadas situações, são sempre os negros pobres. Beyoncé exaltou o cabelo das mulheres negras, sua árvore genealógica, que tem tanto negros quanto crioulos – adjetivo que uma vez já foi pejorativo para definir crianças mestiças – e o racismo exacerbado que ainda corrói os Estados Unidos sulista.

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Tudo isso em apenas 4 minutos e 52 segundos.

Mas, antes de Beyoncé começar a bater cabelo, arrasar na coreografia e colocar a Blue Ivy para sambar de cabelão crespo na cara da sociedade, uma voz poderosa e marcante questiona no início:

“O que aconteceu em Nova Orleans?”

Pode parecer besteira, mas o instante é ainda mais marcante que qualquer “Miss third Ward“: esta é a voz de Messy Mya, um YouTuber negro, gay e militante que, em 2010, resolveu denunciar a violência pública da polícia contra sua comunidade e cultura e… Apareceu morto sob circunstâncias suspeitas.

De cabelos coloridos e humor ácido, Messy não tinha medo de afrontar a milícia – “Eu estou de volta, vadia!” – e pagou um preço alto por isso. Preço que, notoriamente, seus irmãos e irmãs que por algum motivo ainda continuam vivos pagam diariamente. Ironicamente, a história de Messy, que foi baleado sem motivo aparente enquanto saía do chá-de-bebê de seu filho, na época ainda não-nascido, só veio à tona agora, quando seu canal recebeu uma enxurrada de visualizações pós-Formation, que ainda conta com a voz da trans negra Big Freedia, e o mundo passou a tratar as denúncias de Beyoncé, antes uma negra perfeitamente aceitável no meio de convívio branco, justamente por não reclamar e cantar músicas pop recicláveis, como algo ameaçador e bastante sério.

Não fosse pela artista, e sua emblemática música nova, o legado de Messy continuaria no anonimato, e sua existência obliterada.

Beyoncé está movendo seus pauzinhos como nenhum artista mainstream jamais fez antes para escancarar o racismo e torná-lo uma discussão diária – e olha que ela já foi precedida por nomes como Lauryn Hill, Janet Jackson e Azealia Banks – e louvá-la por isto não é uma questão de favoritismo, como muitos leitores do Portal apontam.

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É uma questão de consciência.

Ela sendo uma mulher negra, é nosso dever ouvi-la e acatar seus apelos por mudança. Beyoncé é rica, sim. Privilegiada? Mais que a negra da favela e Messy Mya, sem sombra de dúvidas. Mas isso a torna oportunista ou uma grande estrategista trabalhando única e totalmente a seu próprio favor? Duvidamos seriamente disso.