Um Filme Por Dia Não Sabia o Bem que Fazia:Viajo porque preciso, volto porque te amo

Hoje apresentamos talvez um filme de opiniões controversas, “Viajo porque preciso, volto porque te amo” tem uma perspectiva diferente do que estamos habituados a ver nas telonas. Sua qualidade experimental e sua narrativa singular acompanhada de uma trilha sonora nostálgica cativam e emocionam.

Direção: Karim Ainouz, Marcelo Gomez

Roteiro: Karim Ainouz, Marcelo Gomez

Elenco: Irandhir Santos

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Sinopse: José Renato (Irandhir Santos) tem 35 anos, é geólogo e foi enviado para realizar uma pesquisa, onde terá que atravessar todo o sertão nordestino. Sua missão é avaliar o possível percurso de um canal que será feito, desviando as águas do único rio caudaloso da região. À medida que a viagem ocorre ele percebe que possui muitas coisas em comum com os lugares por onde passa. Desde o vazio à sensação de abandono, até o isolamento, o que torna a viagem cada vez mais difícil.

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Opinião: A característica fundamental que o torna bastante particular entre as obras de estilo road-movie é a ausência de personagens, pois até mesmo o protagonista restringe-se a narrativa de José Renato (Irandhir Santos) que apresenta sua viagem de um mês a trabalho, geralmente em tom de relato para sua “galega”.

Durante a narrativa o geólogo fornece alguns aspectos técnicos do seu trabalho, que visa a análise do solo para a construção de um canal hidrográfico, e apesar de não citar nominalmente, a referência é a transposição do rio São Francisco. Pensando na relação entre estado e população, é curioso ver a disparidade entre o poder das classes mais altas, que em uma cidade como São Paulo têm o poder de influenciar os locais onde devem ou não ser construídas estações de metrô, e a impotência de cidadãos em condições sub-humanas, que são enxotados de uma situação já precária para que a terra em que vivem seja inundada em nome de um suposto progresso, que, conforme a história nos indica, beneficiará apenas grandes fazendeiros. O cenário encontrado por José Renato é degradado e os moradores retratados vivem em meio ao nada.

Outro viés do filme faz referência à segunda parte do título, pois ao viajar pela necessidade do trabalho o protagonista conta, desde o início, os dias e as horas para rever sua amada. O que surpreende, e desencanta os mais românticos, é que apesar do título bastante chamativo, um dos fatores que mais incentivou a viagem de José Renato foi o fim do relacionamento – que é revelado rapidamente, portanto não é nenhuma grande surpresa – que força o protagonista a se afastar do problema na tentativa, frustrada, de esquecê-lo. A ficção do funcionário público que, como tanta gente, busca na viagem a simbologia de afastar-se de um problema na ilusão de esquecê-lo e na esperança de que tudo esteja resolvido na volta, é mesclada com a realidade do depoimento de alguns moradores, revelando a solidão que gera uma angústia até inconsciente. Aquele que no início conta as horas para voltar e relata o serviço adiantado, com o tempo desanima, atrasa e bate de frente com a falta de opção.

A viagem torna-se chata, cansativa, repetitiva em um cenário que independente da quilometragem percorrida é sempre o mesmo; mas qual a alternativa, se voltar implica em encarar a dor do relacionamento interrompido? Em um dilema bastante parecido estão os moradores entrevistados, pois assim como o personagem, eles relatam uma vida dura, a esperança de melhora, mas no contexto em que estão inseridos fica a mesma dúvida, qual a alternativa para sair de uma condição habitual, que reduz a pluralidade humana a um destino quase pré-estabelecido? A demora indicada pelos que não estão acostumados ao dito “cinema de arte” é compreensível, até pela estrutura do filme fugir muito ao tradicional, mas uma das técnicas de montagem do cinema é adequar o ritmo da obra para que fique condizente ao vivido pelos personagens, assim, acompanhando um pouco da viagem de José Renato, vemos que o filme não poderia ser diferente.

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