Um ano de "reputation": como Taylor Swift transformou seu status de vilã em milhões de dólares com uma estratégia de marketing pessoal milimetricamente pensada

“Eu não confio em ninguém e ninguém confia em mim”

Quando se é um artista que impacta milhões de pessoas e todas as atenções do público são voltadas apenas para você, a pressão midiática é algo normal.

Nem todos sabem lidar com ela: alguns entram em colapso existencial, outros preferem passar anos sem lançar nada inédito ou se manifestar para que a poeira abaixe e outros usam esse momento para transformar em marketing, e ganhar mais dinheiro.

Podemos esperar esse último comportamento geralmente de rappers, que constroem seus trabalhos a partir de vivências e transformam diretamente em rimas. Não há uma preocupação em esconder sentimentos, raiva ou momentos tensos, nem muito menos nomes. Na música pop as coisas costumam ser mais leves, ou melhor, costumavam.

Casos recentes foi como Jay-Z usou a faixa “APESHIT” para esnobar o “Super Bowl” e o Grammy, depois de ter perdido todas as categorias com o álbum 4:44 no começo do ano. Eminem, que faz questão de usar suas faixas para falar sobre artistas como Mariah Carey, Iggy Azalea, Lana Del Rey ou lançar diss tracks (canções-resposta agressivas para “inimigos” da indústria como fez com Machine Gun Kelly) e Kanye West, que desde o episódio com Taylor Swift em 2009 (no qual subiu ao palco de um dos prêmios no VMA no qual a artista ganhou para dizer que quem merecia era a Beyoncé) são exemplos claros e explícitos de artistas que usam o marketing pessoal direto e ácido para mandar o recado reto e sem retornos.

A ingênua esperta garota de Nashville

E foi justamente um dos alvos de Kanye West que surpreendeu o público há cerca de um ano com o lançamento de um disco extremamente venenoso, que levou ao pé da letra o título de víbora para ganhar mais dinheiro e promover uma imagem de uma artista que definitivamente não estava se fazendo de vítima.

Como artista pop, Taylor Swift ainda é relativamente novata, mas dominou o jogo das rasteiras na indústria como ninguém em um curto período de tempo. “reputation”, lançado no começo de novembro de 2017 soou como um “chega” da cantora e um pop pesado, bem construído e que mostrou um lado obscuro, mas necessário de uma cantora que passou anos na sombra do country. Temos aí dois lados de uma moeda.

No country, Taylor Swift sempre fez o certo, andou na linha e vendeu a imagem da boa moça, a garotinha ingênua e apaixonada. Um segmento que agradava e muito a parte conservadora dos Estados Unidos e a tornou a “Miss American Dream” da nova geração, um título mais segmentado do que veio a ser Britney Spears no começo dos anos 2000.

Muitos acreditavam no seu potencial e a experiência do álbum “RED” (meio country, meio pop) foi o tiro certeiro de uma transição que a fez sair da zona de conforto abraçando um mercado mais concorrido, traiçoeiro e negro do mainstream. Toda ação tem sua reação. O pop de Taylor Swift agradou ambos os lados e construiu dois públicos para a estrela: os que lhe amavam no country e os que abraçaram sua face pop, ainda em descoberta e aflorando, como os LGBT’s. Essa sacada já foi bastante inteligente e já mostrava que Swift nunca foi controlada por ninguém como aparentava ser, mas era a dona do seu próprio negócio. No álbum “1989” ela conquistou o seu ápice: um disco aclamado, que vendeu quase 10 milhões de cópias e singles platinados em todo o mundo. Florescendo, ela se tornou o alvo por ser a artista mais importante para o mercado ao lado de Adele em meados dessa década. E é aqui que chegamos na sua autonomia verdadeira como cantora pop.

Os problemas com o rapper Kanye West a fez florescer e deixar sua música cada vez mais humana. De contos de fadas e príncipes perfeitos nos primeiros discos, Taylor deixou sua estética mais interessante ao longo do tempo, e no álbum “reputation” mostrou que o sucesso gradativo que conquistou em mais de uma década é sim reflexo de sua inteligência como artista musical.

“Olha ela bancando a vítima, de novo”

Image result for look what you made me do gif

Cansada das brincadeiras de Kanye West, a música “Famous” e a polêmica com Kim Kardashian afiou sua liberdade criativa: era hora de mostrar o que era capaz, colocar os pés no chão e revidar da melhor maneira, criando canções.

“acho que eu e Taylor ainda transaremos. Eu deixei aquela vadia famosa”.

Kanye West - Famous

Como alvo, Taylor criticou na época a faixa e o clipe em que aparecia como uma estátua ao lado de Kanye, citando o verso como misógino. Para proteger seu marido, Kim publicou uma série de vídeos em seu Snapchat tentando provar que a artista tinha aprovado a música antes e que estava sendo hipócrita em sua declaração pública.

Uma série de indiretas na rede e milhares de comentários transformaram Swift na vilã da história, na víbora, na cobra. Emojis de cobra também reinaram em sua conta no Instagram e sua “reputação impecável” de artista que na verdade “não era o que pensavam” começa a aflorar. E não deu outra. Já carregada pela rixa midiática com Katy Perry e chamada de “lobo em pele de cordeiro” pela cantora, a somatização das polêmicas envolvendo seu nome nas principais manchetes de jornais, sites e revistas moldou de maneira sagaz o conceito do seu novo álbum de estúdio, que seria lançado no final de 2017.

“Minha reputação nunca esteve tão ruim”

Taylor Swift guardou para o estúdio de gravação a sua resposta para os ataques. O que ninguém imaginava é como ela faria isso tão bem nos meses que se passaram até o lançamento de “Look What You Made Me Do”, o primeiro single do seu álbum. Se a chamavam de cobra por preservar sua influência como artista musical que veio de um lado conservador dos EUA (o country) e sua ainda recente migração para o pop, a cantora foi fundo e mostrou que o marketing pessoal e a reafirmação de seu novo branding é a melhor forma de ganhar dinheiro.

O blackout nas redes sociais e as cobras antes do lançamento da faixa deixaram todos apreensivos e chocados com a sua ousadia criativa. Ser chamada de cobra pelos últimos anos deixou uma marca em sua aura artística e naquele momento ela deu ao público o que pediram.

Como uma víbora pronta para o ataque e com pingos de veneno escorrendo de sua boca, Taylor conseguiu que a mídia inteira voltasse seus olhos para ela. Os que antes a apedrejaram e debocharam da sua “reputação” bebiam do seu veneno. E veneno e deboche foi o que soube fazer de melhor. Deixando a imprensa praticamente muda com sua falta de entrevista e apresentações televisivas propositalmente como aconteceu no “1989”, ela se vingava.

O público apenas a assistia como uma cobra feroz rastejando e mostrando seu poder de fogo, trocando de pele e mostrando o que seria capaz. O videoclipe de “Look What You Made Me Do” cheio de referências por tudo que foi chamada, as polêmicas, as críticas da imprensa e mais eram transformadas em um discurso performático de resposta direta. Quem viu cada cena entendeu o recado. E não deu outra: quase 50 milhões de visualizações em apenas 24 horas.

A metáfora da víbora que troca de pele pode ser vista na cena do vídeo em que ela destrói com lasers verdes (cor característica desses répteis) suas figuras antigas, vistas como ingênuas e manipuláveis pela mídia. Ela sempre esteve ali, olhando, analisando e montando estratégias para sempre se manter no topo, só que agora, as coisas mudaram e Swift mostra que nunca foi boba e não iria ficar na cama em posição fetal porque a atacavam.

No clipe de “…Ready For It?” ela completa a transição ao interpretar um androide super humano que destrói tudo e todos a sua volta. Um novo nascimento.

“Desculpe… a Taylor antiga não pode te atender, porque ela está morta!”

Os meses que se seguiram até o lançamento mostraram que Taylor realmente não estava nem aí para a mídia que tanto a criticou pela polêmica com Katy Perry, com Kanye West e até mesmo suas amizades e quem colocava em seus clipes (quem não se lembra do squad bad blood e o suposto “padrão de beleza magro” dela que os veículos tanto falavam)?

A capa do disco, em preto e branco com fotografia da dupla Mert And Marcus é cheia de tipografias que lembram um jornal, uma manchete, que pode ter dois significados: o primeiro é ela colocando sua nova persona como o destaque, a parte mais importante de um folheto de notícias. A segunda é a metáfora de que o que a mídia fala sobre ela pouco importa e que agora ela que agenda suas próprias pautas para eles.

Image result for reputation

O álbum, mais uma vez, chegou ao topo da parada norte-americana com mais de 1 milhão de cópias vendidas. No resto do mundo, o negócio foi ainda maior. Não houve explicações, apenas reputação. Através de sua música, o único canal que importou em todo esse tempo, Swift não perdeu tempo com discussões de 280 caracteres de Twitter.

Sem entrevistas diretas, quem quisesse saber o que ela pensava teria que ouvir suas canções. O público se deitou para a víbora que foi colocada contra a parede, a suposta vilã da indústria. E mais uma vez, fez milhões de dólares.

A sua turnê de estádios, a “Reputation Stadium Tour”, já é a segunda turnê feminina mais rentável de todos os tempos, com 310 milhões de dólares arrecadados até o momento, 2,5 milhões de pessoas já assistiram e a média de 6 milhões de arrecadação por cada apresentação. E nela, Taylor não deixou de debochar. Levou uma cobra gigante para o palco.

Recentemente ela também entrou no livro dos recordes como a única artista a conquistar 4 semanas com mais de 1 milhão de cópias vendidas nos EUA com seus discos.

Até agora mundialmente já são quase 5 milhões só do “reputation”.

“reputation” é o grito artístico de que Taylor Swift não tem mais nada para provar a ninguém. Como vilã, mocinha ou cobra venenosa, ela continua dominando a indústria e colocando o público e haters aos seus pés, ou melhor, provando de seu veneno, da melhor forma: fazendo todos ouvirem o que ela tem a dizer com suas músicas. Você pode não gostar dela, mas ela estará sempre lá, no topo do seu próprio jogo e colocando a mídia mundial, os fãs face a face com seus olhos reptilianos.

A menina considerada “sem sal”, ingênua ou tediosa de Nashville floresceu, ou melhor, trocou de pele ao longo desses anos para tomar as rédeas de sua carreira como ninguém. “reputation” provou que Swift pode fazer o que quiser e quando quiser, provou que ela também tem voz política como cantora que influencia milhões de pessoas a votar, apoiar causas, filantropia, denunciar casos de assédio como aconteceu com o episódio do radialista em um de seus meet ans greets e fazer as coisas do jeito que bem entender, afinal não existe mais explicações, apenas reputação: fresca, equilibrada e extremamente importante.

View this post on Instagram

#TimePOY

A post shared by Taylor Swift (@taylorswift) on

Olhem o que vocês fizeram ela fazer.

Image result for look what you made me do gif

O que nos aguarda em um próximo álbum? Com a liberdade criativa afiada, as coisas ficarão cada vez mais intensas e estaremos aqui como plateia para ver até onde essa cantora, compositora, produtora e empresária tem a criar.

Palmas ? ?