(Track by Track) Madonna – Rebel Heart

Madonna tem sido o maior camaleão desta indústria nos últimos trinta anos. Impossível encontrar alguém que não esteja já familiarizado com alguns dos seus maiores hits, como Like a Virgin, Express Yourself, Vogue e Hung Up. Álbum depois de álbum ela sempre apresentou algum tipo de metamorfose, seja física ou sonoramente, provando a teoria de que, para sempre se manter relevante, é necessário se reinventar a cada nova etapa.

Obviamente as vendas não são a mesma (é bem difícil mesmo, praticamente impossível, vender 30 milhões de discos atualmente), mas o status de Madge nunca muda. Sempre esperada, sempre adorada, quase beatificada pelos fãs de música pop.

Afinal, uma vez rainha, sempre rainha.

Rebel Heart é seu 13º álbum de estúdio, e talvez aquele mais problemático digitalmente falando. Só ano passado foram mais de dez canções não finalizadas vazadas, o que levou Madonna a adotar uma estratégia de emergência ao disponibilizar seis de suas preciosas músicas para compra no iTunes. Depois de ter quebrado seu iPod de fúria e ter levantado no Instagram questões seríssimas a respeito da conduta duvidosa daqueles que se dizem “hackers”, Madonna pareceu enfim ter colocado um tampão em todo aquele vazamento. Por bem ou por mal, isso terminou hoje. As vinte e cinco canções (sim, vinte e cinco) da edição mais completa do álbum estão disponíveis na íntegra na internet, completamente finalizadas e no ponto de serem devoradas pelos fãs. Não sei se é apenas uma nova estratégia surpresa da artista, algo como um falso vazamento, ou se ele realmente ocorreu, mas de qualquer forma Madonna tem trabalho a fazer, e rápido. E enquanto isso, o que nós, meros ouvintes, vamos fazer?

Conferir o que Deus está tentando nos dizer neste novo testamento, é claro.

O Grammy está chegando, e ele trará consigo a primeira performance televisionada de Living For Love, que ainda não ganhou um videoclipe mas é a primeira faixa (e também o primeiro single) do novo trabalho. Inaugurando a fase com o melhor dos anos 1980, e com mais um hino de superação Madonna que ninguém sabe fazer melhor, a proprietária do pop admite que foi fraca e se deixou levar pelos sentimentos, o que ocasionou-lhe um coração quebrado. Mas o amor é lindo, e estamos aí para tentar novamente.

“Living for love, living for love, I’m not gonna stop, love’s gonna lift me up!”

Devil Pray é mais uma daquelas clássicas tentativas de Madonna soar polêmica. Todos lembram muito bem dos seus problemas com a Igreja Católica e até mesmo com representantes da religião que a própria segue, o cabala, e sem dúvidas a mais nova oração do diabo deixará aqueles mais conservadores com a pulga atrás da orelha. Com muitas referências a símbolos religiosos, drogas e ao inferno, Devil Pray já é uma das favoritas de cara.

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Illuminatti

Ghosttown é a terceira faixa no Rebel Heart, e como tudo nele, é uma canção grandiosa que se situa num mundo pós-apocalíptico, onde Madonna e seu amado são os únicos que se atreveram a sobreviver ao armageddon e a buscar esperança em meio aos destroços. Querem algo mais inspirador que isto? Já esperando a confirmação como single. Segurem-se porque vem mais.

“When the world gets cold I’ll be your cover, let’s just hold onto each other.”

Unapologetic Bitch quebra o ar pesado das duas músicas anteriores e nos leva direto para a pista de dança com o melhor do reggae. Através de palavrões e referindo a si mesma como uma “vadia sem remorsos”, ela termina mais um relacionamento negativo e, claro, acerta as contas com o amante no fim. A quinta canção é Illuminatti, onde Madonna brilhantemente se refere a outros ídolos como Jay-Z, Beyoncé, Kanye West e Lady Gaga, e brinca com a disseminada lenda urbana a respeito de uma seita relacionada a pirâmides e ao Olho da Providência. É magia negra conceitualista em sua melhor forma, gente. Bitch I’m Madonna traz a primeira outra artista a colaborar no álbum, a outra majestade Nicki Minaj, na terceira parceria das duas. Não reprimindo seu lado narcisista, Madonna eleva todo o seu poder já adquirido a um novo nível ao se afirmar melhor que as outras “vadias” apenas por ser quem é, enquanto Minaj deixa claro que nesta festa, se você não está pronto para dar o seu melhor, é bom voltar para casa. Dubstep pode estar um tanto datado, mas Diplo fez um bom trabalho aqui.

“It’s that go hard or go home zone bitch, I’m Madonna, these hoes no.”

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Sintam só o poder

A sétima música Hold Tight funciona quase como uma sequência para Ghosttown, onde Madonna canta sobre ter sobrevivido, ao lado do amado, a todas as intempéries causadas por um suposto fim do mundo. Em meio a um instrumental sombrio e completamente tribal, ambos são guiados pelos próprios corações até o local de salvação. Joan of Arc, como o nome entrega, é uma balada que simula uma guerra metafórica na vida da estrela. Para quem não sabe, Joana D’Arc é uma personagem histórica feminina que lutou a Guerra dos Cem Anos, o que para a época era algo quase de outro mundo, e justamente por ser mulher, ainda tem um dos nomes mais cultuados da atualidade. Na faixa Madonna se mostra ciente de toda a sua força, mas afirma que não pode ser comparada à Joana. Pelo menos ainda. Basicamente porque ela é humana, como todos nós, e também tem seus momentos de fraqueza onde quer apenas se debulhar em lágrimas e ter um tempo para si mesma.

“I’m not Joan of Arc. Not yet. I’m only human.”

Com muitos aplausos, gritos e as participações de Chance the Rapper e ninguém menos que Mike Tyson, Madonna nos introduz a Iconic, outro dos peculiares nomes da lista de faixas, que celebra o trabalho árduo, as escolhas inusitadas e o sucesso dos indivíduos envolvidos. O instrumental eletrônico e a melodia inconstante remetem ao trabalho da britânica FKA Twigs, caso ela fosse um pouquinho mais comercial. Liricamente Madonna ainda incentiva os fãs a perseguirem seus sonhos, pois “I can’t e Icon são palavras separadas por apenas duas letras”. HeartBreakCity é outra balada que parece ser extremamente pessoal, onde a diva lamenta um relacionamento que foi baseado apenas em sua fama e fortuna, o que deve ser extremamente recorrente no meio em que vive, e se encontra perdida na “Cidade dos Corações Partidos” mais uma vez. Agora tudo o que restou é rancor por todo o cinismo demonstrado pelo homem que a machucou.

“The clever game got the best of me, but you ain’t gonna get the rest of me.”

Body Shop é conduzida por um violão, palmas, vocais delicados e outros instrumentos leves que, em crescendo, remetem a um ambiente tropical. Liricamente falando é ao mesmo tempo uma das canções mais simples e mais complexas do Rebel Heart, recheada de duplos sentidos geniais e uma criatividade avassaladora. A questão é que Madonna parece ter simplesmente se apaixonado por um garoto que trabalha numa oficina mecânica, o que por sinal deve ser o fetiche de milhares de mulheres ao redor do mundo, e enquanto ele ainda está incerto sobre quais ferramentas usar ou qual ação tomar a seguir, a sedutora Madge propõe uma escapada temporária para os confins da Terra: ele dirige, ela fica no topo. O que mais a nova bíblia do pop tem a oferecer?

“I would drive to the ends of the Earth for you…”

Holy Water é a décima segunda faixa, e a responsável por elevar o tempo do álbum, trazendo as batidas mais ágeis de volta. As referências religiosas e sexuais retornam também, com Madonna convidando o garoto a experimentar de sua “água benta” numa clara alusão a sexo oral. No meio disso ainda temos um “Yeezus loves my p*ssy best”. Religiosos extremos certamente torcerão o nariz para esta aqui, mas fãs do clássico Vogue ficarão em júbilo ao ouvir as referências ao antigo hit.

“Don’t it taste like holy water? Like holy water.”

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Sente só essa água benta.

Inside Out nos aproxima do fim da edição standard do álbum, e além de compartilhar o mesmo título com outra icônica canção da princesa do pop, Britney Spears, tem a artista subjugando seu amante ao coloca-lo de joelhos para confessar todos os seus pecados. A faixa tem um ar bem intimista apesar do instrumental eletrônico, como se Madonna quebrasse todas as paredes e finalmente pudesse ver o que o outro guardava para si mesmo, e assim ser capaz de amá-lo completamente.

“I wanna know what you’re all about, you’re beautiful when you’re broken down.”

Wash All Over Me é a balada que conclui a edição mais reduzida do Rebel Heart, e mostra Madonna insatisfeita com o que o homem tem feito do mundo, criticando todas as guerras e as injustiças que a fazem chorar, e se sentindo solitária justamente por se sentir também incomodada com tudo isto. Produzida pelo Avicii, a canção era inicialmente um número dance enquanto demo, mas definitivamente combina melhor com a sonoridade repaginada que remete ao melhor da era Ray of Light. É uma mensagem bonita para se terminar um álbum, mas ainda há mais por vir.

“If this is the end, then let it come, let it come, let it rain, rain all over me…”

Best Night é a primeira de cinco canções bônus. Com um ar árabe e sensualmente alternativo, Madge promete na faixa, que não deixa de ser filler, apesar de possuir um arranjo interessante, fazer daquela noite a melhor da vida de um rapaz. Cinquentona sim, morta nunca.

Mar que bocão é esse? É pra devorá?

“Madonna. A vida é tão louca. E você passou por uma porrada de coisas.”

É assim que Nas inicia Veni Vidi Vici, uma arma carregada de hip-hop pronta para atirar em todas as direções possíveis e que documenta a vida turbulenta da estrela, desde quando criança até os dias de hoje, e referencia suas canções mais icônicas. A letra é marcada pela impactante frase “Eu vim, eu vi, eu conquistei”, que é a tradução do termo em latim veni vidi vici, que intitula a canção. Basicamente, Madonna exibe todos os seus troféus e comemora, mais uma vez, seu sucesso.

S.E.X. é repleta de gemidos, barulhos sugestivos e tem uma letra sexualmente explícita que se encaixaria facilmente na trilha sonora de um filme como Cinquenta Tons de Cinza, o que são as únicas coisas que chamam a atenção na faixa mais-do-mesmo, mas que não a tornam memorável em momento algum (talvez exceto pelo som de uma pesada porta se fechando no fim). Messiah traz um instrumental repleto de violinos e sintetizadores que soa clássico já no primeiro play, e que esconde uma composição meticulosamente planejada onde Madonna novamente mostra seus dotes em magia negra e elabora um feitiço para que o boy a ame, de um jeito ou de outro.

E então, como se guardasse o verdadeiro ouro para o final, Madge nos presenteia com Rebel Heart, que intitula o álbum e foi injustamente rebaixada a faixa bônus, mas talvez em prol de uma experiência mais completa no fim, já que a tracklist realmente não acaba em Wash All Over Me. Minha favorita desde quando se encontrava dentre as demos vazadas, Rebel Heart tem uma produção mais simples se comparada às outras, guiada inicialmente por um violão e depois explodindo nas batidas já características de Avicii, como já conhecemos de dois de seus maiores hits, Wake Me Up e Hey Brother.

“So I took the road less travelled by, and I barely made it out alive.”

Servindo literalmente como o fechamento do portal aberto por Living For Love dezoito músicas atrás, a canção reflete na personalidade excêntrica e única de sua performer, enquanto ela canta que tomou a estrada mais arriscada, e mal saiu dela viva, mas que sabia em seu “coração rebelde” que aquele era o caminho certo a ser tomado.

Para não perder o costume, vamos falar um pouco também das canções restantes que servem como bônus do Rebel Heart em diferentes partes do mundo:

– Beautiful Scars mostra Madonna implorando para ser amada em toda a sua plenitude e com todas as cicatrizes e imperfeições do seu corpo. É o tipo de canção auto-afirmativa que Christina Aguilera adoraria gravar, sem o instrumental dance e com vocais mais powerhouse.

– Com um instrumental adornado com sinos de igreja e um ar medieval, Madonna canta mais uma vez em Queen sobre um mundo em destroços que está mudando: a rainha deste foi destronada e as regras do jogo para seus súditos subitamente mudaram. É um extra para quem gostou de faixas como Ghosttown e Hold Tight.

– A mensagem de Borrowed Time é simples: só vivemos uma vez e estamos na Terra para amar, então vamos fazer cada segundo valer.

– Graffiti Heart é uma faixa que poderia facilmente ser confundida com uma unreleased dos primeiros álbuns de estúdio da cantora, com todo o seu pop oitentista descompromissado e a letra extremamente direta brilhando a cada verso.

“Love is pain and pain is art, show me your graffiti heart.”

– Autotune Baby inicia-se, ironicamente, com o som de um bebê chorando, que gradualmente é alterado pelo efeito musical ao qual muitos cantores tem aderido para robotizar suas vozes, o auto-tune. O resto não merece tantas ressalvas, sendo apenas uma demonstração de como Madonna sabe usar tais efeitos eletrônicos a seu favor sem soar superficial demais, enquanto ela se porta igual uma bebê sendo ninada pelo pai. No caso, algum par romântico. Meio bizarro, não? E fica ainda mais bizarro quando é perceptível o uso dos choros de criança como instrumento, hahaha.

– Ao contrário de I’m Addicted, do álbum anterior, Addicted não é uma faixa eletrônica do Martin Solveig, e sim um pop-rock que parece ter saído diretamente do repertório da Natalia Kills, com, é claro, um pouco de dubstep no refrão para, digamos, não decepcionar os mais novos.

Esta deve ser a resenha mais longa que escrevi em toda a minha vida para um álbum, mas Rebel Heart vale cada segundo gasto. É uma pena o disco ter chegado a nossos ouvidos tão cedo assim, considerando toda a estratégia de marketing e vendas que todo artista é obrigado a elaborar, mas ao mesmo tempo um alívio constatar que, sim, Madonna acabou de agraciar os fãs com um dos maiores álbuns de toda a sua extensa carreira. Será difícil extrair singles de sucesso dele, com toda a competição acirrada da indústria e a maioria dos ouvintes sendo jovens que mal consumem os materiais de uma cantora e logo pulam pra outra e insistem em classificar Madonna como “velha” ou “acabada”. Mas se tem uma coisa que ela não está é acabada, e as vinte e cinco geniais obras de arte que compõem o Rebel Heart são suficiente para provar isto.

cats

A melhor nota (até agora) para o melhor álbum do ano (até agora). Ela merece.

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Obg, de nada.

 

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