Portal Famosos Brasil explica por quê Lady Gaga merecia aquele Oscar, não Sam Smith

A noite de ontem foi recheada de surpresas.

Desde a fenomenal Glória Pires comentando evasividades sobre a premiação na cobertura enfadonha da Globo, até a primeira vitória do Leonardo DiCaprio, que vem batalhando há anos – talvez décadas – para chegar àquele momento e fazer outro de seus discursos altruístas, o Oscar 2016 superou pelo menos os cinco últimos em alguns quesitos.

A derrota de Lady Gaga para Sam Smith, que estavam ambos concorrendo à categoria Melhor Canção Original, ela pelo documentário conscientizador The Hunting Ground, ele pelo último 007, no entanto, não foi o ponto alto da cerimônia.

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Lady Gaga emociona público com performance de ‘Til It Happens To You’ no Oscar

Esta última semana fomos agraciados com questionamentos oportunos a respeito de abuso sexual, violência de gênero e sexismo em Hollywood: a cantora Kesha, que foi aprisionada num relacionamento insalubre com seu ex-produtor, Dr. Luke, que além de impedir que ela tivesse liberdade criativa, a estuprou por mais de dez anos, garantiu que o mundo soubesse da dor e sofrimento de uma mulher inferiorizada pela cultura do estupro.

“Me acertou bem no coração” – Comenta Kesha sobre performance de Lady Gaga no Oscar

Kesha, que chorou no tribunal ao saber do julgamento da liminar que poderia permiti-la trabalhar sem ter qualquer contato com o agressor, comoveu público e celebridades. Uma delas, Lady Gaga, que tomou a colega como protegida, mesmo sem nunca ter tido uma aproximação evidente com ela no passado, e fez das dores dela as suas. Ou talvez não: vale lembrar que Gaga, assim como Kesha, foi abusada em seus tempos de colégio e no início de sua carreira por homens sedentos de poder e ego. Então, a dor também é dela. É, na verdade, de todas as mulheres, desde aquela que sofreu a pior agressão imaginável à “simples” cantada mal-intencionada na rua.

Retrocedendo um pouco, ano passado Gaga lançou Til It Happens To You, a música em questão e uma composição da própria em parceria com a artista multi-platinada Diane Warren. Que caiu como uma luva, obviamente, na situação de Kesha e nos temas abordados pelo Oscar, em que Chris Rock ironizou, ao vivo, a invisibilidade que a Academia proporciona a negros, hispânicos, asiáticos e a forma como o mundo do entretenimento trata as jovens mulheres.

Talvez o genial humorista não tenha tanta propriedade para discutir o assunto sendo homem, tanto é que restringiu, com bom-senso, esta parte do discurso a poucos segundos, mas Gaga deu conta de mandar um recado – e que recado! – à audiência presente mais tarde. Uma audiência que, sem sombra de dúvidas, é composta por agressores e vítimas. Tanto dentro do anfiteatro, quanto na frente dos televisores.

Eleita pela Billboard a “melhor performance da noite”, Til It Happens To You contou com piano, vocais crus, vítimas reais de abuso sexual, além da própria Gaga, no palco e a comoção das celebridades presentes.

A música em si, apesar de não ser um hit monstruoso, mesmo tendo chegado ao topo da parada dance dos Estados Unidos, tem algum tipo de significância superior a pelo menos duas das outras indicadas (excluindo, talvez, Manta Ray, de Anohni). Mas, mesmo assim, e com a sensibilização absurda causada em quase 8 milhões de telespectadores, a cúpula achou melhor, desta vez, premiar outro clássico “tema James Bond“.

Gaga rodeada de vítimas reais de abuso sexual no Oscar

Writing’s On The Wall não é ruim: Sam Smith é mestre em composições e, unido a uma orquestra e abusando de seus falsetes, que são sua marca, ele sem dúvidas seria imbatível e passaria longe de ser a “escolha fácil”… não fosse a discussão em pauta, e a música que vem protagonizando o movimento feminista, pelo menos lá em Hollywood, que é de Lady Gaga, e muito mais importante que qualquer emoção fictícia criada para outro filme categórico de ação.

O resultado foi que, mesmo com toda a representatividade da estrela pop, uma música sofisticada, mas ainda assim comum, ainda assim “o.k.” demais, levou a melhor sobre uma dor que é real, oprime e mata. E Sam ter dedicado o prêmio à população LGBT, que faz parte, em parte, desta batalha, não reduz o impacto negativo causado pelo show.

Talvez em outra edição Sam pudesse ter levado seu primeiro Oscar – que também é merecido – para casa sem a mínima reivindicação. Mas achamos meio irônico que, mesmo problematizando “coisas problematizadoras” na TV paga, o Oscar tenha negado à Gaga, à Diane, à Kesha e às mulheres, este reconhecimento.

Como se não bastasse, não poderíamos deixar de citar a invisibilidade da quarta indicada, a já citada Anohni, mulher trans que decidiu não comparecer à premiação por não ter sido convidada para se apresentar, assim como os outros concorrentes mais famosos.

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Anohni decide não comparecer ao Oscar pela invisibilidade trans

As mudanças estão vindo, e não podemos demandar que elas aconteçam urgentemente: toda revolução é um processo que envolve muita dor, mártires, perdas e luta contínua, mas o jeito é esperar que, ano que vem, a Academia faça jus aos seus discursos humanitários da noite passada e mude drasticamente sua conduta.

Que ainda não é a pior, como exemplificamos, mas está longe de ser perfeita.