#PFBReview (Especial) – Madonna encontra o "amor verdadeiro" em True Blue, terceiro álbum da carreira

Em 1986 Madonna não tinha muito mais com o que se preocupar. Além do assédio interminável dos fotógrafos e as críticas maldosas que eram disparadas em sua direção por todo lado, é claro. A musa de Like a Virgin tinha atingido seu objetivo: ela caíra nas graças do público, e não existia uma pessoa sequer que desconhecia seu nome ou sua música. A vida no topo era quase um conto de fadas, e ela parecia ter encontrado seu príncipe encantado no ator Sean Penn, com quem se casou em 1985 e dividia as atenções como nova queridinha da América. Inspiração era o que não faltava para voltar ao estúdio e iniciar as gravações do próximo álbum. Stephen Bray, que trabalhou com ela no disco anterior, foi novamente convocado para produzir as faixas, enquanto Patrick Leonard (que depois se tornaria um frequente colaborador em projetos futuros) foi o novato adicionado à lista de gênios que em 30 de junho de 1986 trariam ao mercado True Blue.

Inicialmente intitulado Live to Tell, o terceiro LP de inéditas de Madonna é também o seu mais “mulherzinha”, sendo inteiramente dedicado ao seu marido na época e focando principalmente seus sentimentos, incluindo alegrias e decepções, e também seu lado profissional. Além de assumir um loiro mais claro e mechas menos volumosas, Madonna demonstrou o quão apaixonada estava através do título do projeto, que derivava de uma das expressões favoritas de Sean Penn e também de sua visão de um “amor puro”, e mesmo que o fim agridoce deste conto de fadas moderno já tenha sido estampado em todas as manchetes ao redor do mundo, True Blue conseguiu imortalizar emoções que precedem corações partidos, como se nunca tivessem mudado ou desvanecido, e também atingir uma faixa-etária mais madura, que antes havia se mostrado irredutível com relação à valorização da cantora. Se antes Madonna era a nova atração pop do pedaço, com o álbum ela começou sua transição para uma artista completa. E a culpa disso é totalmente dos vocais amadurecidos, dos looks mais “tradicionais” temporários e da sonoridade clássica de algumas canções.

Um dos exemplos mais sólidos desta evolução é a primeira faixa do álbum (e segundo single) Papa Don’t Preach, em que Madonna encarna uma adolescente grávida que luta contra a opinião geral ao se decidir contra o aborto do filho. Como qualquer canção da cantora que se preze, esta causou polêmica e foi atacada por alguns extremistas, já que, de acordo com eles, Madonna incitava a gravidez precoce e prejudicava outros programas de controle de natalidade. Mas tudo o que ela queria, apoiada em arranjos de cordas, guitarras elétricas e teclados era apresentar a garotas nesta delicada situação outra opção além daquela imposta pela família ou pelos namorados, o que gerou nada além de empatia entre grupos feministas. A crítica sendo positiva ou não, Papa acabou se tornando um dos doze números um de Madonna nos Estados Unidos, e também minha favorita do LP.

“Papai, não me enche. Eu já tenho problemas demais. Papai, não me enche. Eu tenho perdido o sono. Mas eu já me decidi: eu vou ficar com meu bebê.”

A percussão incessante continua em Open Your Heart, o quarto single do LP onde Madonna tenta fazer com que um garoto extremamente relutante lhe entregue o coração, que quase trinta anos depois ainda soa como a perfeita trilha sonora para um Dia dos Namorados. Curiosamente, a faixa teria uma pegada mais rock e seria chamada Follow Your Heart se aproveitada por Cindy Lauper. Sorte de Madonna a demo ter parado em suas mãos, caso contrário teria perdido um de seus números 1. White Heat é dedicada a James Cagney e a um filme de mesmo nome lançado em 1949. A homenagem inicia-se com um curto quote da produção acompanhado do som de uma arma sendo disparada, e então os synths dão as caras, mostrando que tudo se trata apenas de outra produção dançante cujo grande diferencial está nas vozes masculinas duplicadas que apoiam Madonna no refrão, e não em referências a filmes noir ou pistoleiros.

“Não tente correr, eu consigo te acompanhar, nada pode me impedir de tentar.”

Live to Tell é uma balada bastante complexa seguida de teclado, sintetizadores e percussão real e eletrônica, que serviu como o primeiro single do álbum e de quebra foi usada na trilha sonora de um filme estrelado por Sean Penn naquele ano. A música lida com sentimentos angustiantes como o receio e a decepção, além de também atingir um ápice emocional para Madonna ao focar em cicatrizes emocionais de infância da própria, mas não deixa explícito, em momento algum, se esta é a verdadeira origem de sua dor ou se algo mais a perturba. De qualquer forma, uma coisa é certa: Live to Tell não é sobre um mero relacionamento que deu errado.

“Eu sei onde a beleza vive. Eu a vi uma vez e sei do conforto que ela oferece.”

Where’s the Party é uma canção dance padrão que tem Madonna tentando se libertar de suas amarras com o intuito de aproveitar os bons momentos da vida. Descrita assim Party soa clichê e previsível, mas serve quase como a Into the Groove deste álbum, e se pedem minha opinião, é tão lúdica e irreverente quanto o famoso hit. Terceiro single do projeto e sua faixa-título, True Blue possui forte inspiração doo-wop e é mais uma típica canção de amor de Madonna, dedicada a, adivinhem quem… Sean Penn! Rs. Madge não é muito entusiasta desta em especial por motivos óbvios, mas a separação do casal queridinho de Hollywood no fim dos anos oitenta não descredita a canção como a declaração de amor de um coração ingênuo e, mais importante, um incrível tributo às girlbands dos anos cinquenta.

“Eu procurei o mundo inteiro por alguém como você. Não sabe que isso é amor verdadeiro?”

Dispensando maiores apresentações, La Isla Bonita é o primeiro hit com influências latinas de Madonna. O clássico inclui tambores cubanos, maracas e harmônicas, e apesar de ter sido um marco para a era, foi justamente o último single retirado do álbum. Inicialmente oferecida a Michael Jackson, La Isla foi recusada pelo Rei do Pop, uma vez que ele não estava interessado no momento em adicionar sons hispânicos a seu repertório, e nas mãos mais que competentes de Madonna acabou se tornando uma inesquecível homenagem à beleza, cultura e misticidade latina, e um de seus singles-assinatura.

“Noite passada eu sonhei com San Pedro. Mesmo que nunca tivesse estado lá, eu conhecia a canção.”

Jimmy Jimmy mostra a admiração de Madonna por um vizinho bad boy, que é selvagem demais para a cidadezinha em que vive e cujo único desejo é sair dali. Tal vizinho acaba se revelando ser, ficticiamente, James Dean. As homenagens a astros imortais do cinema e à Hollywood clássica nunca cessam em True Blue. Mesmo nunca sendo lembrada nem apresentada ao vivo, Jimmy Jimmy tem lá seu valor no álbum, tanto é que foi “sampleada” em 2012 pelas garotas do Stooshe, uma banda britânica com fortes inspirações Motown. Love Makes the World Go Round é uma chamada à paz mundial que tem em sua composição percussão latina e até mesmo um pouco de samba. A canção foi performada ao vivo por Madonna antes mesmo do lançamento do álbum, e como muitas outras no True Blue remonta a músicas mais pacifistas dos anos sessenta.

Mesmo que Madonna já tivesse se tornado um nome de peso em meados dos anos oitenta com seus dois primeiros álbuns, True Blue possibilitou que ela enveredasse por um caminho decididamente pop e imprimisse mais emoção e passionalidade em seus trabalhos, enquanto a influência direta de filmes noir e profundidade lírica apresentaram aos então domados críticos uma artista que, mesmo complexa, jamais perdia o apelo comercial. Qualquer coisa lançada por ela neste ponto se não ia direto para o topo das tabelas musicais não passava longe do top 5, e as 25 milhões de cópias vendidas de True Blue mundialmente só provam o incontestável: já em 1986 a loira sabia que tinha o trono de rainha da música todo para si, e sem grandes concorrentes do sexo feminino, ela não hesitava em abusar dos direitos de majestade para usar sua voz para propósitos maiores e emplacar hits, que são lembrados e celebrados até hoje.

“Um homem pode contar mil mentiras, eu aprendi bem minha lição. Espero que eu viva para contar o segredo que descobri. Mas até lá, ele irá queimar dentro de mim…”

Como se não bastassem as vendas monstruosas de 25 milhões (se igualando ao desempenho comercial de Like a Virgin) Madonna ainda teve o prestígio de receber um Video Vanguard Award da MTV, já tão cedo, pelo impacto de seus videoclipes na cultura pop. True Blue pode ser dedicado a Sean Penn, “ao cara mais legal do universo”, mas assim como os trabalhos anteriores da artista serviu como um ditador da música pop dos anos oitenta até hoje, e se todos pensavam que Madonna tinha atingido seu ápice até então, definitivamente não perdiam por esperar.

Valem o play: Papa Don’t Preach, Open Your Heart, Live to Tell, Where’s the Party, La Isla Bonita

Passo: White Heat

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Próximo: Who’s That Girl (Soundtrack)

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