Paciência e persistência: a cobrança da internacionalização de Anitta e porque é mais complexo do que imaginamos

Quando falamos em “música pop” e “Brasil” é impossível não citar Anitta. O match é tão perfeito que o nome da popstar é o carro-chefe mais promissor para o cenário global dos últimos anos.

De fato. Desde que surgiu, a cantora é um dos pilares mais importantes da música brasileira.

Recentemente, o Portal Famosos Brasil participou da coletiva de “Boys Don’t Cry“, novo single de Anitta para o mercado internacional. A pressão de estar com o nome no topo da lista e a euforia das pessoas por resultados a curto prazo criou um frenesi no chat. Afinal, conquistando tudo em tão pouco tempo aqui no Brasil, as pessoas já esperam o próximo passo. E o outro. E depois outro. Muitas vezes durante o bate-papo, Anitta sentia a necessidade de explicar e pedir a famigerada “paciência”.

Nem tudo são flores, e nem tudo acontece de forma espontânea.

Mas afinal, por que a cobrança gigantesca pela internacionalização da cantora brasileira e por que estamos enxergando esse momento de uma forma completamente errada?

Para abordar esse assunto, precisamos voltar alguns anos, precisamente em 2010, quando Anitta foi contratada pela Furacão 2000 e lançou seu primeiro single: “Eu Vou Ficar” e no ano seguinte “Fica Só Olhando“.

O primeiro single de visibilidade de Anitta foi “Meiga e Abusada“, que entrou no top dez das músicas pedidas das rádios brasileiras, além de ser também a faixa que lhe rendeu o contrato mais importante de sua vida, o da Warner Music Brasil. Em 2013, a carioca lançava “Show das Poderosas“, quando atingiu seu estrelato em nível nacional.

Estudo, dedicação, muitas participações em eventos e shows. Foi apenas em 2013 que ela conseguiu atingir certa visibilidade nos meios de divulgação do Brasil, com o mega hit “Show das Poderosas” que naquela época ainda eram muito restritos as rádios.

Até conseguir emplacar seu primeiro hit, Anitta levou longos três anos.

Em poucas linhas, já deu para perceber que nossa estrela sabe bem quais os pontos-chave de qualquer carreira de sucesso: foco, volume e constância.

Na boca do povo, a situação muda. Fazer sucesso pode ser difícil, mas se manter relevante e solidificar uma carreira tornando-se um ícone… é para poucos. Conhecemos bem os chamados “One Hit Wonders“. Aqueles artistas que bombam com uma música, aproveitam todo o seu sucesso e depois caem no ostracismo em um declínio meteórico. Os motivos podem ser muitos: uma sucessão de fracassos por desapego do público ou uma má administração de carreira, por exemplo.

Para Anitta, superar “Show das Poderosas” foi um dos seus primeiros desafios como promessa nacional no começo da última década. As faixas seguintes como “Blá, Blá, Blá“, “Ritmo Perfeito” e “No Meu Talento” tiveram estreias consideradas mornas perto do furacão que dominou as paradas com um balé afiado, um clipe em preto e branco e um sonho. “Zen” até fez um barulho, mas nada perto do que o público já esperava da estrela: algo maior e com mais impacto.

Foi em 2015 em que Anitta finalmente assinou como uma das artistas brasileiras mais influentes do país. O ano da virada para a cantora, que deixava o único rótulo de uma cantora já sublime do funk para se tornar uma verdadeira popstar. O mais legal é que, com a imagem renovada, ela soube muito bem mostrar ao mundo que o gênero popular do Rio de Janeiro poderia sim ser “pop” e andar junto de outros como o reggaeton, trap e sertanejo, que dominam as paradas do pais.

O primeiro single do álbum “Bang“, “Deixa Ele Sofrer”, deu à cantora o título de ser a primeira artista brasileira a ocupar o topo do Spotify Brasil e desde então ela não parou. Foi o primeiro refresco tipicamente pop em disco pop do que estava por vir. A música açucarada nos deu o primeiro sabor de uma estrela promissora.

O tempo do primeiro single da Anitta até o “Bang”? Cinco anos. Muito estudo, dedicação, foco e constância em entregar algo que a faça subir um degrau de cada vez. Atravessamos longos cinco anos vendo Anitta tentar até acertar, considerando que ela já tinha um super hit, “Show das Poderosas”, a missão deveria ser mais fácil? Só que não.

“Bang” – o single – chegou como a divisão oficial de uma artista iniciante para uma promessa pop já internacional. A produção “cartoonesca” do ítalo-brasileiro Giovanni Bianco – um dos maiores diretores criativos do cenário já trabalhando como Fergie, Nicki Minaj, Madonna, Rihanna e outras – elevou o nível e apelo estético de Anitta, que depois dos primeiros segundos e as explosões de pós-produção do clipe, já não era mais a mesma.

É impossível pensar em 2015 e não lembrar de “Bang”. A música conseguiu ter mais impacto do que “Show das Poderosas” por catapultar a estrela para níveis já imaginados por ela. Aonde ela queria estar e o que queria ser. No páreo, foi a partir daí que colocar Anitta ao lado de Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Fernanda Abreu, Marisa Monte e outras já consideradas “medalhões” da música brasileira já não era mais um delírio, era realidade.

Mas claro… era pouco para os olhares de tigre de Anitta. A missão agora era atravessar fronteira através das ondas sonoras de suas músicas. De “Sim ou Não” com Maluma e “Paradinha” – sua primeira música voltada para o território internacional de fato e em espanhol – já foi um salto gigante.

A era “Checkmate” e seus singles cravaram suas canções nos charts das mais ouvidas da América Latina e do México. Ela conseguiu, mais uma vez. No “Solo“, tivemos uma de suas obras-primas: “Veneno“, que elevou o seu “star quality” tanto como “Medicina“, single que veio antes do projeto. A produção global mais parece uma campanha da UNICEF e isso definitivamente não é ruim. O clipe cheio de crianças de diversas etnias nos seu um “spoiler” do que viria acontecer nos próximos anos.

Sem contar as suas parcerias com produtores e diretores consagrados como Pharrell – “Goals” – e Ryan Tedder, responsáveis pelos maiores hits de Adele, Beyoncé, Taylor Swift e Lil Nas X.

Em junho de 2020, Anitta assinou seu tão sonhado contrato internacional. Ela estava pronta para começar sua escalada em território mundial de vez e com certeza isso seria uma missão “fácil” aos olhos do publico brasileiro.

Nenhum artista nunca conseguiu escalar tanto. De Carmen Miranda a Michel Teló, era preciso muito mais do que apenas participações relâmpagos ou muito específicas. Era preciso ser um nome de peso, um concorrente em meio aos tantos nomes da América do Sul, por exemplo, que já decolaram lá fora: J Balvin, Kali Uchis, Nathy Peluso e a maior de todas: Shakira.

Dificuldades e irrealidades. Esse foi o pensamento de muitos.

Ser pé no chão e se despir do sucesso instantâneo já consagrado nos singles meteóricos da Hot 100 – a parada mais importante dos EUA – é uma mentalidade que todos devem ter quando falamos em artistas de outras nacionalidades. É um público diferente, um estilo musical diferente. São terras que para quem estar de fora, os passos para o sucesso são curtos. Todo conhecimento sobre música quando o assunto é o mercado fonográfico mais competitivo, lacrado, preconceituoso e dinâmico do mundo, a indústria fonográfica americana, muda completamente.

Após essa reflexão, voltamos para a nossa pergunta inicial: nesse cenário menos fértil e mais díficil de ser garimpado, por que a cobrança gigantesca pela internacionalização da cantora brasileira em tão pouco tempo e por que estamos enxergando esse momento de uma forma completamente errada?

E é aqui que o nosso editorial finalmente começa, dissecando e procurando entender mais sobre a carreira internacional de Anitta, principalmente quando os principais questionamentos são: “Ah e a carreira internacional? Não aconteceu ainda?”

Note que negritamos o “ainda”, já que vamos precisar compreender o tempo para que possamos utilizar tal termo. Afinal, quanto tempo você acha que a Anitta tá fazendo carreira internacional? Desde 2017? Começou em 2019? Chega a ser estranho quando abrimos a boca para dizer que a carreira internacional da Anitta tem, na verdade, apenas 16 meses. Com todo suporte, pessoas certas e uma imersão total em um local ainda pouco conhecido por ela.

Ah, Mas como só tem dezesseis meses se o “Checkmate” foi um estouro? Como só tem isso se ela fez várias colaborações internacionais?

Sentimos te informar que talvez nada disso serve para efetivar peso em medidas mainstream, uma vez que nenhum desses lançamentos foram assinados com o selo global de Anitta. Muitas das músicas lançadas por ela em outros idiomas não tiveram aceitação de sua gravadora ou dos empresários que investem em sua carreira. O ousado álbum “Kisses” (2019) – que vinha com a proposta de ser um disco trilíngue e totalmente “global”-, foi uma iniciativa dela, no nível de ter que “bater o pé” nos escritórios de sua empresa de gerenciamento artístico para lançá-lo. De uma vez, com todos os clipes, sem divulgação prévia.

Dentre os muitos lançamentos “globalizados”, tais tentativas eram testes de público, a procura de uma nova identidade. Por isso é importante ressaltar: o que compreende como “carreira internacional” para Anitta, começa a partir de setembro de 2020, quando a brasileira lançou “Me Gusta“, com participações de Cardi B e Mike Towers.

Com seu primeiro lançamento assinado por um selo global, Anitta conquistou sua primeira entrada no chart mais importante dos Estados Unidos. #95 para muitos é uma posição sem relevância alguma: pouco para quem nasceu já dentro dos Estados Unidos da América, mas muito em sete dias de sua carreira internacional.

Meses depois, tivemos a divertida e apenas promocional “Loco” – que para a cantora – foi só um momento de “baguncinha gostosa” em Aspen, Colorado – um dos locais que mais gosta nos EUA.

Os calafrios na barriga agora vão para a ousada e já tão falada na época “Girl From Rio“: a primeira em inglês nessa fase já nos EUA e faixa-título do seu novo álbum. Sabe o ditado: “Pega na mão de Deus e vai“? Foi exatamente assim que Anitta conseguiu um dos destaques mais importantes de sua carreira, sozinha! Apesar de não ter conseguido uma entrada na Hot 100 da Billboard e nem uma posição de destaque no iTunes US, foi desta forma que Anitta se apresentou para radialistas do país inteiro, logo já era possível ver que quase metade das reproduções de “Girl From Rio” no Spotify, vinham de fora do Brasil.

Com apenas dois dias de contagem, Anitta conquistou cerca de 1.6 milhão de reproduções vindas apenas do Brasil, sendo que “Girl From Rio” já contava com mais de 3.2 milhões de execuções no Spotify, ou seja, cerca da metade dos plays que a faixa recebeu foram de fora do nosso país. O single chegou a atingir até mesmo as 100 mais reproduzidas em gênero geral nas rádios dos Estados Unidos. E como muitos por aí pensam, conseguir um chart na Billboard não é uma missão nada fácil, já que é um mix de vendas digitais, streams e desempenho em rádio, que no final, garantem ao artista uma posição na lista.

As performances televisivas e o destaque no comercial da Burger King também catapultaram o sucesso.

Podemos dizer que de fato, o desempenho internacional de Anitta começou engatinhar após a estreia de “Girl From Rio”, convites para programas de televisão, premiações, festivais e colaborações após o lançamento da faixa. A prova clara disso é que meses depois, Saweetie, uma das rappers mais influentes do momento nos Estados Unidos, chegou para somar em “Faking Love“.

Vamos parar um pouquinho e entender o que temos até agora… uma fundação, a construção da base. Isso mesmo, não havia sentido a artista lançar um álbum para o público americano sem ter ao menos um apanhado de canções com atividade em solo americano, afinal qual americano iria se interessar por “Vai Malandra” ou “Downtown“, que apesar de serem incríveis, são faixas que nem são cantadas no idioma nativo deles?

Isso necessariamente nunca foi o problema, mas na época, Anitta já estava fazendo muito barulho na América Latina. Como já falamos, um passo de cada vez para voos cada vez mais altos.

Basicamente, Anitta pavimentou sua carreira de um ano e quatro meses com três canções que ela e sua gravadora consideravam boas, para então lançar o que apostam ser o “coringa” dessa primeira evolução, “Boys Don’t Cry”.

Da consagração no Brasil, para a promessa da América Latina e agora, artista global. Tudo em mais de 10 anos! Construir uma base sólida leva tempo, esforço, estudo, volume e… constância.

Sonhar alto sem um trabalho árduo para ter suporte para isso é como construir uma casa na areia, qualquer onda ou vento, tudo desaba. Além de firmar sua carreira em um chão sólido com ajuda de pessoas relevantes e já imersas no mercado que deseja brilhar, a estrutura está sendo bem montada. Depois, só aparamos as arestas. Mas para isso, paciência e persistência.

Portanto é desleal exigir de Anitta uma explosão dentro do mercado fonográfico mais competitivo do mundo em 16 meses quando ela levou cinco anos pra conseguir se estabilizar aqui no Brasil, é uma tremenda ignorância. A conta não fecha. Ok. Uma música poderia viralizar ou de forma tao genérica cair nas graças do público como as milhares que vemos todos os anos. Mas e depois?

A cantora sabe o que quer, e certamente ser esquecida em questão de meses não está nos seus planos.

Já temos o fator “credibilidade”. Muitos convites e estrelas globais já a reconhecerem como uma promessa. Afinal ninguém chamaria uma desconhecida para um confraternização chique ou para cantar em sua festa de fim de ano, né? Oi Miley Cyrus, tudo bom? Quais produtores e compositores consagrados como Ryan Tedder, Pharrell, BURNS e Bibi Bourelly apostariam suas fichas em alguém que não “teria futuro”? Anitta já aconteceu.

Anitta não está errada em nos pedir paciência, nós é que estamos errados em querer comparar sua trajetória aqui e achar que ela deve fazer o mesmo lá fora. Agora é continuar tentando, e tentando. Um #1 na Hot 100 da Billboard pode estar distante ou mais próximo do que imaginamos. Mas isso realmente importa? Olha onde a garota de Honório Gurgel já chegou: abriu as portas para que qualquer um que sair daqui, possa fazer o mesmo. Por mais que as críticas venham de absolutamente todos os lados: não reconhecer que ela é a maior que temos é mais do que burrice, é ser louco e querer se abster de algo já realidade. A escolha é unicamente sua. Como diria nossa ilustríssima Gabriela Prioli, você pode se pautar em informações tiradas do Data Foda-s* ou apenas pautar-se em números, gráficos e estatísticas.

Como a própria bem diz em “Tá com o Papato“: Call me Anitta: Diva worldwide, bitch.

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