Mais que uma aposta de vencedores para o Grammy 2018, lhes trago reflexões!

Eu estava procurando o tema do meu próximo texto aqui e daí pensei “o Grammy está ai né?” Como um grande admirador da indústria da música internacional, também tenho minhas apostas para a premiação. Irei apresentar os indicados e dizer por qual motivo acredito que um ou outro concorrente deva ganhar. Como o Portal Famosos Brasil trabalha majoritariamente com música pop, darei foco para as principais categorias e as do gênero popular. Vale lembrar que, assim como os outros textos da coluna, essa é a minha opinião e não reflete o pensamento da redação do PFBR.

A cerimônia do Grammy Awards é  um evento esperado por todos os admiradores da cultura pop. Receber o gramofone parece ser uma grande honra para alguns daqueles que trabalham na indústria da música. A espera do anúncio dos vencedores, escolhidos pela acadêmia, é agonizante até mesmo para os fãs. A premiação sempre acaba causando algumas polêmicas, desde as indicações, que acabam deixando alguns grandes trabalhos de fora, até os vencedores, que por vezes contradizem os favoritos da maioria do público e até de alguns veículos midiáticos. Devemos lembrar, e dar enfase nisso, que apenas ser indicado já é uma grande honra, até porque a nomeação também é uma escolha da acadêmia.

Neste ano, Kendrick Lamar e Jay-Z foram os grandes destaques, levando mais de 5 nomeações, cada. Outros já conhecidos que também estão na lista do Grammy são Bruno Mars, Lady Gaga, Kesha, Lorde e Luis Fonsi.

Categoria Record Of The Year:

Indicados:
“Redbone” — Childish Gambino
“Despacito” — Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber – Vencedor
“The Story Of O.J.” — Jay-Z
“HUMBLE.” — Kendrick Lamar
“24K Magic” — Bruno Mars

Contrariando o que li em fóruns e sites de análise sobre as indicações, considero a nomeação de “Despacito” um ponto alto. E inclusive, acredito que possa levar o gramofone. Vocês vão entender.

Estamos falando de uma categoria que analisa a música de maneira geral, como ela foi gravada, aquela com o conjunto certeiro para excelência global. Sendo assim, a música de Luis Fonsi pode, sim, vencer. Não apenas pela reprodução do ritmo que tem arrastado multidões, com base instrumental nas mais refinadas identidades latinas, ou pela letra festiva, mas também porque “Despacito” representa uma revolução no mercado musical tanto dos Estados Unidos como de todos os países que podem ser considerados, ultrapassadamente, de primeiro mundo.

Acho importante dizer que presença do Justin Bieber no remix me deixa um pouco triste. Não me entendam mal, mas o clipe da música já havia ultrapassado 1 bilhão de visualizações sem a versão com o canadense. Já era um sucesso mundial. Mas os norte-americanos só deram atenção quando Bieber “adaptou” a canção. Então, é um erro dizer que foi o cantor pop que fez a música ser um hit. Isso mostra o quanto podemos questionar o Grammy. É de um oportunismo tremendo chamá-lo de a maior premiação musical do mundo enquanto nega gêneros musicais do “lado sul” do globo. Afinal, quem são os vencedores do Grammy? Majoritariamente estadunidenses, canadenses e europeus. A não ser é claro, como no caso de “Despacito” e de cantoras como Shakira e Rihanna casos em que, de alguma maneira, o músico ou a canção se adeque ao que o mercado norte-americano quer.

Sobre as outras indicações, Bruno Mars trouxe uma produção impecável com alterações de frequência na voz bem colocadas e instrumentais estruturados em um baixo viciante. A conversa que ocorre na canção, entre o intérprete principal e os backing vocal, nos dá o gostinho saboroso que já experimentamos em sua parceria com Mark Ronson. Já em “HUMBLE” temos batidas mais fortes e pesadas. Nada poderia ter funcionado melhor do que as pausas do instrumental combinadas aos efeitos crescentes e decrescentes que permeiam a interpretação do rapper.

A combinação dos vocais rasgados com batidas psicodélicos de “RedBone” são uma experiência lírica alucinante. Acredito que não esteja entre os favoritos, mas é uma produção requintada que pode sem dúvidas alguma receber o gramofone inesperadamente. Já a música do Jay-Z não me agrada tanto quanto outras que poderiam ter sido indicadas. Mesmo assim, entre tantas genialidades, continuo achando que a exista de fato uma influencia em relação ao impacto comercial de cada uma, é só olharmos para os últimos vencedores, músicas como “Uptown Funk“, “Hello” e “Get Lucky“. Com isso, Childish Gambino e o marido da Beyoncé estão em desvantagem.

É claro que nenhuma destas conseguiu chegar perto do sucesso de “Despacito“, então o porto-riquenho Luis Fonsi tem uma vantagem, ao mesmo tempo que enfrenta certo preconceito por se tratar de um música com espanhol. Mas, para termos ainda mais certeza de que as chances dessa vitória são realmente grandes, não devemos esquecer que a versão original da música foi vencedora no Grammy Latino em duas categorias principais, Canção do Ano e Gravação do ano. A versão remix também foi premiada, por Melhor Interpretação Urbana.

Ou seja, em tempos em que se discute a construção de um muro originário do simbólico separatista que procura diminuir o valor da América Latina, séria no mínimo interessante ver um latino aplaudido ao ganhar uma das categorias principais do Grammy estadunidense. E sim, a música de Luis Fonsi pode ter saturado, até porque se tornou o maior smash-hit da era digital, mas não é por você ter ouvido ela 231 vezes – e enjoado – que ela é ruim. Ou seja, não existirá nada de vergonhoso na possível vitória nessa categoria.

As outras prováveis premiadas seriam, na minha opinião, “RedBone” ou “24K Magic“. Ficaria assim: “Despacito” > “RedBone” > “24 Magik“. “Ai, mas e “Humble“? As três canções que citei ali tem mais elementos instrumentais e parecem mais complexas. Lembrando que o que importa aqui é como a produção foi gravada e não a música em si. Se letra e melodia fossem fatores decisivos, Kendrick venceria sem dúvidas.

Senti falta da indicação de  “Shape of You”. Uma música de sucesso absurdo que, por mais que se assemelhe muito as coisas que a Sia já fez, traz o cantor numa pegada inovadora para sua discografia. Tal como The Weeknd, com “I Feel It Coming“. Outros que ao meu ver poderiam ganhar indicações aqui, levando em consideração que temos músicas não tão bem sucedidas entre os nomeados, são Lorde e Harry Styles, com “Green Light” e “Sign Of The Times“.

Categoria Song Of The Year:

Indicados:
“Despacito” — Ramón Ayala, Justin Bieber, Jason “Poo Bear” Boyd, Erika Ender, Luis Fonsi & Marty James Garton, songwriters (Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber)
“4:44” — Shawn Carter & Dion Wilson, songwriters (Jay-Z)
“Issues” — Benny Blanco, Mikkel Storleer Eriksen, Tor Erik Hermansen, Julia Michaels & Justin Drew Tranter, songwriters (Julia Michaels)
“1-800-273-8255” — Alessia Caracciolo, Sir Robert Bryson Hall II, Arjun Ivatury & Khalid Robinson, songwriters (Logic Featuring Alessia Cara & Khalid)
“That’s What I Like” — Christopher Brody Brown, James Fauntleroy, Philip Lawrence, Bruno Mars, Ray Charles McCullough II, Jeremy Reeves, Ray Romulus & Jonathan Yip, songwriters (Bruno Mars)

É complicado fazer uma análise destas,  já que são escolhidas por um público que fala inglês, algumas gírias podem acabar se perdendo em nossa compreensão por não as conhecermos dentro da realidade em que foi escrita. O prêmio, inclusive, não é dado ao intérprete em si, mas sim aos compositores, já que a categoria analisa a música em si, letra e melodia.

Gosto das músicas indicadas, embora tenha ficado um pouco decepcionado porque existiam outros trabalhos que poderia estar nomeados. Cadê “Humble“? Onde está “Perfect Places“? Essa última é com toda certeza umas da melhores composições da Lorde, transcrevendo sensações juvenis e representando uma geração inteira. E, ainda assim, cadê a indicação? Mais além, porque não “Chained To The Rhythm”? Era óbvio que Katy Perry não seria indicada com “Witness“, levando em consideração toda a negatividade que os estadunidenses enviaram pra ela em 2017, porém o single reflete pontualmente, com suas metáforas, a realidade de seu país e o modo como as pessoas tem vivido no sistema.

Mas o que o Grammy parece preferir? Canções de amor. E não que isso seja ruim, parte das melhores musicas do mundo são feitas em cima de um coração quebrado. Entretanto, mesmo com trabalhos indiscutivelmente bons sobre outros temas, a bancada prefere, em todas as edições, focar no romantismo. Isso é como dizer aos artistas “façam músicas de amor, é isso que iremos premiar”. Porém, ok, vamos aguardar pelos próximos anos da premiação. Sobre esta, sinceramente, não sei se existe um favorito, acho que ficará entre “1-800-273-8255” e “4:44”.

A música com Logic, Alessia Cara e Khalid tem uma mensagem inspiradora que em momento algum se perde na interpretação dos artistas, mesmo sendo eles consideravelmente distintos. Os três são nomes novos no Grammy – Alessia e Khalid concorrem também na categoria de artista revelação, então sua nomeação em uma das principais categorias da noite é realmente admirável. Bem como Julia Michael com “Issues“. Na realidade os dois únicos grandes nomes da premiação, que estão concorrendo nesta categoria, são Bruno Mars e Jay-Z. E, dentre eles, “4:44” me parece a mais apropriada para vencer. Não que “That’s What I Like” seja ruim, não mesmo, mas ela cai naquele clichê de “eu sou rico e te dou tudo que você quiser porque eu te amo”, enquanto a música do rapper é carregada de emoção, retratando seu relacionamento com a esposa Beyoncé de uma maneira nunca vista antes.

No entanto, se olharmos o histórico de vencedores desta categoria, vemos que todos os antigos vencedores foram também grandes sucessos. Os quatro últimos foram “Hello“, Adele, “Stay With Me“, Sam Smith, “Thiking Out Loud“, Ed Sheeran, e “Royals“, Lorde. Dessa maneira, “Despacito” entra com grande força na disputa. Porém parte da música é em espanhol e em toda a história do Grammy apenas uma música de outra língua, que não fosse o inglês, venceu aqui. A canção “Volare“, do Domenico Modugno, em 1959. Se Luis Fonsi levar esse gramofone pra casa, será histórico. E nós temos que admitir que a quebrada da melodia em “des….pa….cito” é genial.

Caso Julia Michaels vença, ficarei muito surpreso. Seu single não obteve tanto sucesso quanto as outras indicadas e seu nome, infelizmente, não possui o reconhecimento de um Jay-Z, por exemplo. E, embora “Issues” soe melhor liricamente que o hit do Bruno Mars, acredito que é a música com menos chances de ganhar.

Sendo assim, coloco dessa maneira: “1-800-273-8255” > “4:44” > “That’s What I Like

Ainda pra dar enfase a outras indicações que poderiam ter sido feitas: porque não tem “What About Us” aqui?

Categoria Best New Artist:

Indicados:
Alessia Cara – Vencedora
Khalid
Lil Uzi Vert
Julia Michaels
SZA – Vencedora

Primeiro, todos os artistas indicados aqui são excepcionais e devem ser observados, eles tem um futuro brilhante os aguardando. Entretanto a disputa é claramente entre Alessia Cara e SZA.

Lil Uzi Vert e Julia Michaels receberam duas indicações, cada um, para a premiação. Todos os outros tiveram o dobro, ou mais, o que já me faz crer que seja uma desvantagem. E embora tenham conseguido outra grandes feitos – Julia até trabalhou com nomes grandes como Britney Spears – acabam ofuscados.

Alessia Cara é a nomeação mais popular, já tendo sido interprete oficial da trilha sonora de uma animação de sucesso, “How Far I’ll Go“, e colocado quatro músicas no Top 10 da Billboard – “Here“, “Stay“, ““1-800-273-8255” e “Scars To Your Beatiful“. A última foi até apresentada no MTV Video Music Awards (VMA), onde a cantora levou um premio na categoria Melhor Video de Dance e em Best Fight Against the System. Ainda sobre premiações, ela foi vencedora em Artista Revelação e melhor Álbum pop no Juno Awards, Breakout Artist of the Year no Radio Disney Music Awards e Revelação Canadense no MuchMusic Video Award. No Grammy ela está concorrendo em  quatro categorias, sendo que duas delas estão entre as principais da noite.

Khalid e SZA tem o inicio de carreira um pouco mais modestos. Ele leva na mala o prêmio de artista Revelação do VMA e algumas parcerias de sucesso. Sua música mais bem sucedida é a parceria com Logic e Alessia. Ela, já venceu nas categorias Melhor Revelação de R&B/Soul ou Rap e Melhor Artista Feminina de R&B/Soul no Soul Train Music Awards e emplacou 4 músicas na Billboard Hot 100, sendo uma delas um remix com Maroon 5, que chegou ao nono lugar. No entanto ambos tem cinco indicações ao Grammy deste ano, competindo entre si em três, número superior ao de Cara. Ainda sobre SZA, a cantora é uma das queridinhas da crítica, conseguindo notas superiores às de seus concorrentes. Seu álbum de estreia conseguiu nota 86, se posicionando como um dos 20 discos mais bem avaliados de 2017.

Minha aposta está em SZA, dentre outros motivos, porque a última artista R&B premiada nesta categoria foi Alicia Keys, em 2002, e nos últimos dois anos os premiados foram Meghan Trainor e Chance The Rapper. Uma cantora pop e um rapper, tal como estão representados Alessia Cara e Khalid. Não esqueçamos também da proximidade de SZA com Kendrick Lamar, que inclusive está presente em alguns de seus trabalhos, um nome de extremo respeito no meio artístico, coisa que pode até lhe dar vantagem na escolha da bancada do Grammy.

É claro que posso me surpreender, acredito que a popularidade de Alessia seja um ponto forte para ela. Mas, para mim, fica desse jeito: SZAAlessia Cara > Khalid

Categoria Album Of The Year:

Indicados:
“Awaken, My Love!” — Childish Gambino
4:44 — Jay-Z
DAMN. — Kendrick Lamar
Melodrama — Lorde
24K Magic — Bruno Mars

Aaah essa categoria, fico até com medo de falar sobre ela. Vamos começar pelo óbvio: vai ser Lorde ou Kendrick Lamar. Mas é claro, não se esqueçam que o Grammy já nos surpreendeu muito com esse “óbvio”. Repito que só o fato de ser indicado já é uma grande honra, quanto mais para essa categoria, todos esses trabalhos são magníficos. Mas apenas um vai ser eleito o vencedor. E pode entrar “DAMN“.

Acredito que Kendrick deva ganhar não simplesmente pelo álbum ser inexplicavelmente divino, e ter recebido nota 96 de 100 no metacritic, mas também pelo contexto em que a premiação estadunidense está inserida. É uma questão de desligar um pouco do gosto pessoal expressivo e ir para a sensatez. Vamos relembrar um pouco.

Em 2015 Lamar concorria nesta mesma categoria com seu melhor trabalho, o “To Pimp a Butterfly“(TPAB), considerado um dos discos mais importantes deste século, que inclusive foi colocado na biblioteca de Harvard e se tornou um dos álbuns de hip hop mais bem aclamados da história. E mesmo sendo indiscutivelmente o favorito, seu trabalho, que apresentava uma discussão complexa da realidade racista que negros enfrentam nos Estados Unidos, perdeu para “1989“, álbum que rendeu mais um capítulo da novela de Taylor Swift contra Kanye West. A vencedora aqui tem 20 pontos a menos de nota no metacritic se comparado ao TPAB.

Essa caso levou a discussão do racismo na premiação para um nível muito grande, que só ficou ainda maior depois da derrota de Beyoncé no ano passado. “25” é bom? Sim, mas “Lemonade“, tal como no caso citado acima, estava em outro nível. A própria Adele admitiu isso em seu discurso de agradecimento. E não estou aqui diminuindo artistas, até porque Taylor e a interprete de “Hello” são nomes gigantescos da atualidade, o que estou fazendo é trabalhar com a realidade. Dois artistas negros com discos que ficaram entre os mais bem avaliados de todos os tempo perderam para duas cantoras brancas com álbuns de “nota 7”.

Alguns utilizaram a seguinte frase para justificar a derrota deles: “Ah, mas ele também contam o impacto e quanto vendeu né”. Só que não. Mesmo com vendas inferiores, Kendrick e Beyoncé provocaram discussões e reflexões que transpassaram a indústria musical. E se essa afirmação fosse real, e o racismo não, Beyoncé também não teria sido derrotada em 2014 para o Beck, levando em consideração que seu disco, além de parar o mundo com a nova proposta álbum visual, havia vendido quase três vezes mais que o concorrente.

Tá, mas o que isso tudo tem a ver com a edição de 2018? Simples, além do merecimento pelo trabalho magnifico, o autor de “DAMN” carrega consigo paradigmas complexos de sua obra autobiográfica,que fala sobre racismo, e enfrenta uma premiação considerada racista. É a chance do Grammy premiar um artista negro, depois de tanto tempo os mantendo longe de vitórias nas principais categorias. Em 60 anos de premiação, apenas 10 artistas negros levaram a estatueta de Album of the Year.

No entanto, existe um outro porém essa ano e ele se chama “Melodrama”. David Bowie havia nos avisado que Lorde era o futuro da música e com esse trabalho não nos resta dúvidas de que ele estava certo. Ouvir o último álbum da interprete de “Royals” é como adentrar um mundo espetacular e dramático sustentando com palavras emocionantes, complexas e sinceras, uma interpretação vocal profunda, com instrumentais precisos e muitas vezes delicados. Sabe aquela coisa de apenas sentir e não saber explicar? Então, é isso.

Se o “Melodrama” estivesse concorrendo contra “25” e “1989“, ele deveria ser o vencedor. Até porque Lorde conseguiu igualar sua média de notas ao “Lemonade“.

Eu preferiria ver Kendrick vencer, não apenas porque cada música soa como uma poesia intimista e verdadeira, mas também pelo contexto que os Estados Unidos está inserido, aflorando todos os tipos de preconceitos e ganhando base democrática para isso. Mas, se a Lorde vencer, DESSA VEZ a diferença entre os dois não será tão gritante quanto em 2016 e 2015, pelo menos não ao ponto de parecer que a escolha final foi ridícula. De maneira que a diferença nas notas do metacritic, por exemplo, não chega aos 20 pontos dessa vez. A cantora conseguiu 92 e o rapper 96.

Mas podemos ser surpreendidos não é mesmo? O fato é que geralmente as indicações para Álbum do Ano são mais diversificadas e dessa vez nós temos três rappers nomeados. Isso faz com que os membros da acadêmia que tem mais afinidade com ao hip hop e rap tenham que dividir seus votos entre o trio nomeado. Já aqueles que preferem musicas um pouco mais “clean” irão escolher entre Bruno Mars e Lorde.

Bruno é um nome forte na cultura pop e, por mais que “24K Magic” não tenha obtido tanto sucesso de crítica quanto “Melodrama“, sua voz é muito conhecida e respeitada. A vibe oitentista, os grandes hits e seu histórico de 25 indicações, com cinco vitórias, vão agradar a acadêmia. E temos que aceitar que, por mais que Lorde seja mencionada por alguns como uma diva pop, o grande representante popular desta categoria é Mars.

Por fim, acho que o top 3 dessa categoria ficaria: “DAMN” > “Melodrama” > “24K Magic

Não me aprofundei em “4:44” e “Awaken, My Love!” porque, enquanto representantes do seu gênero musical, acredito que Lamar é de fato quem deva ganhar. O Jay-Z já é nosso velho conhecido e, embora seja um músico canonizado, não percebi tanto potencial no disco, não para tantas indicações. Já sobre o Childish Gambino, se estiverem curiosos para saber no que resulta  junção do hip-hop com funk setentista e soul psicodélico, tens aqui a escolha perfeita.

Talvez seja muita petulância da minha parte, mas acredito que SZA deveria estar indicada aqui. Ela já está entre os destaques de número de indicações, seu disco ficou entre os 20 mais bem avaliados do ano, e isso só mostra o quanto seu trabalho DE ESTRÉIA, “CTRL“, é admirável.  Além do mais, uma mulher negra ajudaria a “equilibrar” o a questão de gênero entre os indicados, levando em consideração que a Lorde é a única mulher na lista. Seria uma grande conquista dela, ser indicada para álbum do ano já em seu primeiro disco, mas me parece justo, visto que sua média de notas só não é maior que a dos dois favoritos. “Starboy“, do The Weeknd, também era um disco muito bom para estar na disputa e não simplesmente isolado na categoria especifica de estilo musical.

Categoria Best Pop Solo Performance:

Indicados:
“Love So Soft” — Kelly Clarkson
“Praying” — Kesha
“Million Reasons” — Lady Gaga
“What About Us” — P!nk
“Shape Of You” — Ed Sheeran

É muito delicado falar sobre as categorias pop, as pessoas sempre levam pro pessoal, então tentarei ser direto. “Praying” > “Shape Of You” > “Love So Soft”.

Kesha é a minha favorita. Sua música, além de vocais impressionantes, traz sentimentos muito fortes em sua  interpretação. A voz trêmula e os sopros de respiração entre as frases de “Praying” fazem dela a mais intensa dentre as nomeadas. No contexto em que foi lançada, é um grito da cantora para que sua verdade seja ouvida.

Ed Sheeran nos deu um dos maiores hits de 2017 e, dentro de suas capacidades vocais, soube trabalhar bem ajustando sua performance à melodia da canção. Não podemos comparar a voz do cantor com a de cantoras como Lady Gaga, quando falamos em extensão vocal. Até porque não é o número de notas que um vocalista atinge que o faz ser bom, mas sim a maneira como o mesmo constrói seu trabalho. E nesse sentido, não existem questionamentos contra Ed. Por mais que fique chato as vezes a semelhança entre suas apresentações, o cara sabe o que está fazendo no palco.

Quanto as outras três indicadas, mesmo se tratando de performances excelentes, acredito que Kelly Clarkson saia na frente. Além de seu bom histórico no Grammy, “Love So Soft” é uma demonstração intensa de poder performático. Existe uma disputa para entender qual parte brilha mais na música. O cruzamento de Kelly com as backing vocal? As brincadeiras e melismas do refrão? Os agudos e notas estrondosas do final? Não sei, mas apenas é impossível que a bancada da premiação não se sinta impactada com a voz daquela que já venceu essa categoria, em outros anos, com “Stronger”.O que pode favorecer Gaga é a notoriedade que “Million Reasons” ganhou com o Super Bowl, só que não é impacto suficiente para superar “Shape Of You“. E P!nk apresentou uma composição consciente e inspiradora, mas que infelizmente não ganhou tanta atenção nos Estados Unidos.

Temos aqui uma disputa complicada, as três musicas que destaquei representam coisas diferentes e, por isso, se distinguem das outras duas. “Praying” é intensa e emocionante, “Shape Of You” é um grande hit e “Love So soft” é requintada e impactante. Ainda bem que não sou eu que escolho quem ganha rs

Uma música que poderia estar indicada aqui é “Sorry Not Sorry“, atual hit de Demi Lovato. Por motivos óbvios: vocais impressionantes, boa produção e exito comercial considerável. Bem como a Demi, Selena Gomez também poderia estar aqui. “Bad Liar” foi aparentemente muito bem recebida pela crítica, e é um exemplo do que chamam de nadar contra a maré, por ter sido lançada como algo muito diferente do pop que estava tocando nas rádios.

Categoria Best Pop Duo/Group Performance:

Indicados:
“Something Just Like This” — The Chainsmokers & Coldplay
“Despacito” — Luis Fonsi & Daddy Yankee Featuring Justin Bieber
“Thunder” — Imagine Dragons
“Feel It Still” — Portugal. The Man
“Stay” — Zedd & Alessia Cara

Nenhuma música aqui se destaca tanto ao ponto de ser uma favorita inquestionável, com exceção de “Despacito“. E só porque é um grande hit.

Não acredito que “Something Just Like This” ganhe. Mesmo que Coldplay seja já conhecido de longa data da acadêmia, o histórico da banda nesta categoria é apenas de derrotas, e do The Chaismokers também. A maneira como a música funciona não me parece algo que possa ser premiado. Talvez seja implicância, mas os vocais estão muito simples e a batida é comum demais para um Grammy, em alguns momentos nem parece que elas combinam. É bom, porém sem um brilho, sacam? Na minha opinião, até “Thunder” consegue cumprir um papel melhor. Na verdade Imagine Dragons soube escolher um bom single, visto que essa é de fato uma das melhores músicas de seu álbum. Porém, sinto que a história da letra poderia ser melhor elaborada e não terminar repentinamente.

A minha aposta estaria em “Stay“, se Luis Fonsi não estivesse com seu smash-hit aqui também. Alessia Cara encaixa seus vocais perfeitamente, a letra tem um inicio, meio e fim e a produção do Dj é repleta de elementos diferentes que conseguem, milagrosamente, soar harmônicos. No entanto tem aquela coisa né, música bilíngue e bla bla. O certo é que fica entre as duas. A terceira opção seria “Feel It Still”, por ter todo aquele clima instrumental que estamos acostumados a ver o Grammy premiando.

Mesmo com os pontos a favor do remix, aposto na música com a indicada ao prêmio de revelação: “Stay” > “Despacito” > “Feel It Still” > “Thunder” > “Something Just Like This

Agora, me expliquem uma coisa, esse ano foi o boicote ao The Weeknd? “It Feel It Coming” é nada mais nada menos que uma parceira com Daft Punk, vencedor em 2014, que praticamente ressuscitou o estilo adormecido de Michael Jackson. E eu não estou falando que ele é o novo rei do pop, apenas que é impossível não conhecer o trabalho dos dois artistas e não relaciona-los quando se ouve a parceria.

Categoria Best Pop Vocal Album:

Indicados:
Kaleidoscope EP — Coldplay
Lust For Life — Lana Del Rey
Evolve — Imagine Dragons
Rainbow — Kesha
Joanne — Lady Gaga
÷ (Divide) — Ed Sheeran

A maneira como o “Rainbow” foi construído é sensacional. Os vocais de Kesha estão surpreendentes, a intensidade de sua voz faz tudo parecer um grande e emocionante desabafo ou uma forte e estrondosa demonstração de atitude. A soma da boa produção das músicas e do contexto em que o disco foi lançado faz da cantora a pessoa perfeita para vencer essa categoria.

Sem dúvidas todos os álbuns são excelentes, do contrário nem estariam indicados, mas todos tem peculiaridades. Com exceção da proximidade de proposta de “Joanne” e “Rainbown“, os indicados trazem sonoridades completamente diferentes. Nós sabemos que o pop está acostumado à fusão de outros estilos, mas estes nomeados mesclaram as batidas com tamanha genialidade a ponto de deixar suas canções com uma identidade muito própria e até distante do pop comum. Com isso, a bancada, que sempre julga essa categoria, pode vir a escolher “÷“, (Divide), como vencedor, por ser o mais próximo do pop de rádio e não caminhar tanto por outros gêneros musicais (mesmo que apresente alguns elementos de musica celta).

E não, não estou dizendo que álbuns como “Lust For Life” não podem ser classificados como pop. Apenas que suas imagens estão diretamente ligadas à outras estilos e, na hora da votação, a academia vai estar cheia de pessoas escolhendo o melhor álbum POP. Até porque, nessas categorias específicas, os únicos que podem votar são aqueles que trabalham com o estilo a ser julgado. Eles se depararão com algo mais diversificado. O que é muito bom, mas pode fazer eles optarem por algo que lhes soa mais familiar. São hipóteses, mas poderiam ser teorias da conspiração também. Entendem?

Montando uma ordem de três primeiros colocados eu deixaria assim: “Rainbow” > “Lust For Life” > “Joanne” (curiosamente, se vocês olharem as notas no metacritic de cada um dos indicados, vão ver que as três maiores notas estão nesta ordem que montei: 81, 78 e 67). Não acho que “Kaleidoscope EP” vença, por se tratar de um EP, na realidade não entendi muito bem nem a indicação, exatamente por ser um Extended Play. Quanto ao “Evolve“, não sei se Imagine Dragons tem tanta chance contra nomes fortes da música pop como Lady Gaga e Kesha, até porque é uma banda que já venceu em Best Rock Performance.

Ainda sobre essa categoria, precisamos destacar a falta da cantora Demi Lovato nas indicações.  “Tell Me You Love Me” é sem dúvida um disco excepcional, isso é quase uma opinião unânime, ao ponto de muita gente deu atenção à cantora por ele ter sido tão bem feito. Além disso, representa uma tremenda evolução da cantora, que foi indicada anteriormente com um álbum que considero inferior, e, para mim, poderia inclusive ganhar. Afinal, mesmo com as influências claras do soul, “Tell Me You Love Me” manteve a pegada “diva pop” com maestria.

Lembrando que essas são as minhas opiniões, as minhas apostas. Acho muito importante acompanharmos esses eventos da industria cultural, porque eles representam muito da nossa realidade. Tal como aconteceu no Globo de Outro, poderemos ver protestos e conscientizações nas apresentações e discursos mas não podemos esquecer que a premiação, principal motivo do evento, também reflete muitas problemáticas. As características dos indicados, dos vencedores e até daqueles que estão presentes. Porque são eles, e não outros – ou outras -, que estão lá?

A 60.ª cerimônia do Grammy Awards vai ser realizada no dia 28 de janeiro de 2018 e será transmitida pela Rede CBS, ao vivo no Madison Square Garden. Espero que tenham entendido os pontos que levantei. A premiação sempre nos surpreende, tanto negativamente quanto positivamente. Peço para que façam a análise de vocês e contem pra gente aqui nos comentários e nas redes sociais do Portal (Facebook, Twitter, Instagram), tanto concordando quando discordando. Não esqueçam de ser carinhosos e sem xingamentos (rs).