“Eu não sou aquela inocente”: os 20 anos de “Oops”… I Did It Again”

Era 16 de maio de 2000 quando Britney Spears lançou seu segundo álbum de estúdio. “Oops!… I Did It Again” estreou em #1 na Billboard 200 vendendo mais de 1.319.00o cópias nos Estados Unidos na semana de lançamento. Por quinze anos, esse foi o recorde de “maior venda de álbuns na semana de estreia por uma artista feminina”. Ele só foi quebrado por Adele, com o álbum “25”, em 2015. Foi esse álbum que marcou de vez a importância de Britney Spears para a indústria da música pop, lhe rendeu prêmios importantes e mostrou que ela tinha vindo para ficar.

“Oops!…” era um álbum que tinha muito para provar. “Baby One More Time”, o disco anterior, havia sido um sucesso estrondoso em vendas e havia muita pressão ao redor de Britney para que seu segundo CD obtivesse o mesmo sucesso. Nas palavras dela mesma: “É meio difícil superar dez milhões de cópias, eu posso dizer. Mas depois de ouvir o material que gravei, estou bastante confiante”. Nos Estados Unidos, ambos venderam mais de dez milhões de cópias e, no mundo, ambos venderam mais de 20 milhões de cópias. O objetivo havia sido conquistado.

Não somente ambos foram comercialmente bem sucedidos, como “Oops!… I Did It Again” foi considerado uma sequência do “Baby One More Time”, por seguirem a mesma direção musical: dance pop e baladas R&B. Porém, em termos líricos, “Oops” se mostra muito mais maduro que o primeiro. Desde a faixa título homônima até a autobiográfica Dear Diary, é possível identificar a tentativa de mostrar que Britney Spears, agora com 18 anos, não estava mais falando somente sobre romance adolescente. Até a forma como sua imagem foi trabalhada durante a era denota essa tentativa de mostrar que ela estava crescendo.

Britney Spears sendo capa da Rolling Stones de maio de 2000

No single “Oops!… I Did It Again”, Britney fala que “não é aquela inocente”. A faixa título alcançou nono lugar na Hot 100 e, para a gravadora, foi um pequeno desapontamento comparado com “Baby One More Time”. No clipe, Britney está em Marte, num macacão vermelho aderindo ao seu corpo, sendo visitada por um astronauta norte-americano que está com seu “coração do oceano”, referenciando à jóia jogada ao mar no fim do filme Titanic (1997).

“Stronger”, a segunda faixa do álbum, é um grande hino de independência pós relacionamento. “My loneliness is killing me” (Minha solidão está me matando), trecho presente em “Baby One More Time” ganha referênciaaqui no trecho “My lonelines ain’t killing me no more” (Minha solidão não está me matando mais). A faixa foi o terceiro single da era e alcançou a 11ª posição na Hot 100. No clipe, Spears vê seu namorado traindo-a em um bar futurístico. Ela sai dirigindo, bate o carro e dança na chuva. Também há uma sequência onde ela dança numa cadeira inspirada no clipe “The Pleasure Principle”, de Janet Jackson.

A faixa seguinte, “Don’t Go Knocking On My Door”, também trata de separação. A quarta faixa é um cover da banda Rolling Stones, “(I Can’t Get No) Satisfaction”. A letra foi adaptada para Britney e a produção foi aprovada pela banda. A ideia de fazer o cover partiu da cantora. “Don’t Let Me Be The Last To Know”, quinta faixa do disco, foi co-escrita por Shania Twain, famosa cantora country estadunidense, e produzida pelo seu marido. “Man! I Feel Like a Woman” e “You’re Still The One” são alguns dos hits de Shania Twain. “Don’t Let Me Be The Last To Know” é uma das favoritas de Spears de toda sua carreira. Foi o último single da era. Apesar disso, não entrou em nenhum chart e seu clipe foi considerado muito picante para a época, por mostrar Britney com seu namorado fictício namorando na praia.

A sexta música era “What U See (Is What You Get)”. Essa faixa sofreu um processo de plágio iniciado pelos músicos Michael Cottirl e Lawrence Wnukowski contra Britney e sua gravadora. Entretanto, perderam por falta de evidências e de “semelhanças suficientes entre a música deles e a música de Spears”.

Logo em seguida temos “Lucky”, a sétima música do disco e segundo single da era. A canção é um conto sobre a solidão das estrelas de Hollywood. Foi muito bem recebida pela crítica e considerada uma das melhores músicas que o álbum tinha a oferecer. Alcançou top 5 no Reino Unido. No clipe, Britney interpreta o narrador e a personagem principal, “Lucky”, que é uma melancólica estrela do cinema com problemas em lidar com a fama. Muitos fãs consideram a faixa uma narração da relação da própria Britney com seu estrelato.

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A faixa oito é “One Kiss From You”, uma balada com influências reggae, onde Spears canta que após beijar seu rapaz, consegue imaginar todo seu futuro com ele. Com “Where Are You Now”, a segunda balada do álbum, Britney pede sinceridade com os sentimentos dela. Em “Can’t Make You Love Me”, Britney acena pro europop e diz que carros caros e dinheiro não se comparam ao amo. Finalizando o álbum, “When Your Eyes Say It” aparece como a terceira balada do CD e mostra um dos vocais mais bonitos da carreira de Spears, escrita pela grande compositora Diane Warren. E, terminando, “Dear Diary”, co-escrita pela cantora baseado em uma experiência pessoal.

“Oops!” teve uma divulgação massiva, com diversas aparições em programa de TV e shows surpresa ao redor do mundo. Uma das suas performances mais marcantes da época foi no MTV Music Video Awards, onde ela cantou o cover “(I Can’t Get No) Satisfaction” e o hit single “Oops!… I Did It Again”. Britney começa a performance de terno e gravata e choca o público ao tirar rapidamente toda roupa, ficando, aparentemente, nua. Entretanto, ela veste uma segunda pele, repleta de cristais Swarovski estrategicamente posicionados. A performance foi considerada inapropriada por se tratar de uma menina de 18 anos ficando ilusoriamente nua em rede nacional.

E foi durante essa era que Britney Spears veio ao Brasil pela primeira vez. A “Oops!… I Did It Again Tour” passou também pela América do Norte e Europa, sendo a primeira das turnês dela a sair dos Estados Unidos. A tour teve sua etapa norte-americana iniciada em 20 de Junho de 2000 e terminou em 20 de Setembro de 2000. Duas semanas de descanso depois, em 10 de Outubro de 2000, a etapa européia da turnê começava, tendo seu fim em 21 de Novembro de 2000. Três meses depois, numa apresentação dessa turnê, especial para o Rock in Rio, em 18 de Janeiro de 2001, Britney se apresentou no Brasil.

Britney Spears no Rock in Rio 2001

Sua passagem por aqui, entretanto, causou controvérsias. Seu show era um dos mais esperados da noites, teve nove trocas de roupa e diversas pausas. Durante “Lucky”, Britney exibiu a bandeira dos Estados Unidos no telão, o que não foi bem visto pelo público. A mídia noticiou a decepção dos fãs com esse aspecto do show o qual foi considerado morno ante as expectativas. Curiosamente, Britney Spears só voltou a inserir o Brasil em turnês futuras em 2011, dez anos depois. Essa apresentação no Rock in Rio 2001 fechou a era Oops!.. I Did It Again.

O álbum está atualmente listado como 64ª melhor álbum de uma artista feminina na Billboard 200, premiado como Álbum do Ano 2000 também pela Billboard. Foi indicado a “Melhor Álbum Pop/Rock” no American Music Award e “Melhor Album Pop Vocal” no Grammy Awards.

“Oops!…I Did It Again” foi o álbum que demonstrou os primeiros sinais de transição da fase de artista adolescente para artista adulta que Britney sofreria. A cantora desbravou essa transição no teen pop e abriu caminho para todas as artistas teen posteriores. As críticas que sofreu ao explorar sua própria sensualidade eram frutos de sexismo e Britney seguiu resiliente a todas elas. Já nessa época, ela demonstra interesse em ter mais controle das narrativas que canta e da imagem que produz. Está tomando consciência da influência que tem no mercado musical e também na vida de inúmeros adolescentes ao redor do mundo. Seu legado se reflete em cada artista adolescente feminina que hoje em dia canta suas liberdades sexuais e se expressa sensualmente. Agora todas elas tem Britney para se espelhar nesse processo artístico. E tudo começou com um “eu não aquela inocente”.

Relembre: