Credibilidade em cheque: como o Grammy se mostrou uma instituição racista ao longo dos anos

O “Oscar da Música”, como é conhecido o Grammy Awards, é a maior premiação musical do mundo, e prestigia anualmente os destaques musicais. Porem, a premiação vem perdendo seu prestígio há anos. Logo após Beyoncé ter perdido a categoria de “Álbum do Ano”, em 2017, para Adele, a comissão de avaliação recebeu duras críticas acerca dos prêmios para artistas negros, que são escassos. Porém, isso não é recente. A premiação traz consigo uma bagagem histórica de desmerecimento aos artistas negros e seus trabalhos.

Ao longo dessa última semana, surgiram vários escândalos envolvendo Deborah Dugan, ex presidente da Academia. Na ocasião, a ex-CEO abriu um processo que expunha todas as irregularidades que aconteciam na premiação, desde assédio até casos de boicote, fraude e um elevado grau de racismo, onde Deborah afirmou que o Grammy evitava prestigiar artistas de rap e R&B (em sua maioria negros) nas categorias principais da premiação.

Não precisa de muito esforço para perceber que bancada da Recording Academy (comitê que analisa os indicados para distribuir as premiações) não é grande fã de álbuns que abordam críticas sociais intensas, principalmente se for embargado de lutas pela causa negra. A começar por Michael Jackson, que foi esnobado em diversos álbuns e só teve seu reconhecimento merecido com o “Thriller” – este ainda pelo fato de vender milhões e não por sua essência – outros artistas como Nina Simone, Aaliyah, Aretha Franklin, James Brown e Tupac também sofreram com essa segregação nos tempos passados.

Ao trazer essa discussão para um passado recente, observamos trabalhos magníficos de artistas negros, de construções sociais bem elaboradas e novamente sendo esnobadas pelo Grammy, que por sua vez deu lugar aos artistas brancos, muitas vezes genéricos, que fazem “mais do mesmo” e não conquistam certas notoriedades e aclamação por seus trabalhos. Como exemplo, “ANTI” da Rihanna, “Lemonade” de Beyoncé, “Channel Orange” de Frank Ocean e “To Pimp a Butterfly” de Kendrick Lamar; ambos aclamados pela crítica com notas técnicas altíssimas e boa construção, em todos os sentidos. Como resultado previsível, ignorados e perdendo nas principais categorias, que tinham força e poder mais que suficiente para vencer.

Porém, quando se trata de categorias secundárias, o Grammy tem especialmente uma denominada Best Urban Contemporary Album, que serve como prêmio de consolação para os artistas negros, que dominam essa categoria, porém dificilmente ganham ou concorrem nas categorias principais. Além desta, diversas categorias do hip-hop e músicas urbanas também são constituídas, por sua maioria, de artistas negros. A questão não é ganhar ou perder: o álbum perdedor, na maioria das vezes, tem melhores avaliações críticas ou maior impacto, mas foi feito por um artista negro. A título de curiosidade, a última mulher negra a levar o prêmio de “Álbum do Ano” foi Lauryn Hill, ainda em 1999 e, nos 59 anos de premiação, artistas negros levaram o gramofone nesta categoria apenas 12 vezes.

Em uma avaliação crítica da edição de 2017 do Grammy Awards, onde trazia Rihanna e Beyoncé como destaques e líderes de indicações, a Academia fazia um merchandising absurdo em cima da imagem das divas para receber audiência. No entanto, a edição da premiação deixou a desejar na distribuição dos prêmios: Rihanna, de nove indicações, não venceu nenhuma. Já Beyoncé levou apenas duas estatuetas para casa – muito menos que ambas mereciam e trabalharam duro por isso.

Na época, Beyoncé apresentava um trabalho impecável com o “Lemonade”, álbum promissor que mudou o rumo da indústria fonográfica – primeiramente por ser visual, ou seja, todas as músicas serem acompanhadas de videoclipe, segundo, por contar uma história contínua, do início ao fim, coerente e bem construída e, o mais importante, por representar a beleza negra, sobretudo da mulher, a força legitimada para vencer e se sobressair em um mundo machista e racista, que as coloca para baixo e quer se sentir superior, deslegitimando seu poder e luta pela igualdade. “Lemonade” fez alguma coisa pela vida das pessoas, realmente ajudou muitos negros e se encontrarem como seres humanos. Trouxe a questão tão séria e complexa da solidão da mulher negra para a mídia mainstream.

Tais requisitos fizeram de Beyoncé mais que merecedora do prêmio de “Álbum do Ano”, que naquela época ostentava o título de música mais premiada da história com “Formation”, canção que empoderava a mulher negra e que explicitava sua luta. Porém, o prêmio ficou para Adele e seu – deslumbrante – álbum, denominado “25”. De fato, um excelente trabalho, mas que não apresentava o que Beyoncé tinha proposto a se fazer. Quando Adele recebeu o prêmio na cerimônia, chegou a dizer que “Lemonade” era o álbum da sua vida e que esperava que Beyoncé vencesse: “tão monumental”, disse a cantora em seu discurso.

Diante dos fatos de premiações passadas, em que grandes artistas sofreram com a segregação, começaram os boicotes à premiação, no qual vem sendo constantes. Frank Ocean deixou de submeter seus dois últimos álbuns à premiação. Drake, após ter recebido prêmios no gênero hip hop, mesmo tendo lançado músicas pop, não submeteu seu próximo álbum à premiação, além de artistas consagrados não comparecerem ao evento há anos, mesmo sendo recordistas de indicações, vide Childish Gambino e Kanye West.

A questão é que a bancada do Grammy não muda seus moldes por estar habituada a vangloriar apenas artistas brancos, pois é mais fácil ir a favor da indústria e premiar os mesmos artistas brancos de sempre, preservando sua segurança, do que ir “contra a maré” e deixar os racistas de plantão da América de narizes torcidos contra a premiação. É mais fácil fazer a aclamação a trabalhos mornos, do que fazer o merecido reconhecimento aos que realmente merecem e trabalham duro por isso, atrás de uma causa social enorme. Deslegitimar a luta negra, sobretudo das mulheres, é o que o Grammy sempre fez e sempre fará, pois a sociedade ainda é um lugar em que o racismo predomina, e a premiação não quer correr o risco de lutar contra o racismo e ter a possibilidade seu prestígio de “melhor do mundo”, sobretudo a audiência do povo americano.

De fato, o Grammy se solidifica como uma premiação segregadora e racista, porém apresenta o mesmo problema de diversas premiações americanas: a maioria dos indicados, dos ganhadores e dos votantes para as premiações são brancos. Os artistas negros trabalham o dobro dos brancos, alcançam a excelência artística para terem seu reconhecimento e, por vezes, nem mesmo assim são premiados pelo que merecem – sequer indicados. Ao que parece, para o Grammy, ser branco, genérico, fazer o mesmo de sempre, além de vender muitos discos, é a chave para vencer as principais categorias da premiação. Isso não é sobre “sentir inveja” dos brancos ou odiá-los. Nunca foi. É sobre favorecimento branco. Sobre racismo.