Bruno Capinan lança Tara Rara

Bruno Capinan traz toda essência da sua carreira em seu novo álbum: Tara Rara. O cantor e compositor baiano radicado em Toronto, no Canadá, apresenta no dia da Abolição da Escravatura as lutas do povo negro e a força gay desde a época dos seus antepassados até os dias de hoje. São onze canções autorais, uma em parceria com Luisão Pereira, com influências que vão de Ary Barroso aos Tincoãs, e fazem reverência a Roma Negra. O projeto conta com o ritmista Marcelo Costa, Bem Gil no violão, uma orquestra de músicos LGBTQIA+, o músico australiano Adrian Astro Perger, e Vivian Kuczynski na produção. Conheça a história de Tara Rara:

Tara Rara

Por Bruno Capinan 

Fui da dor ao prazer. Do breu a luminosidade. Dos gritos dos porões dos navios negreiros ao Brasil atual, o do navio negreiro moderno. Quis cantar sobre o desejo, a carne de carnaval, a saudade da Bahia, os pés negros na areia do mar, os pés do colonizador, os “deuses deusas” que habitam as profundezas do mar. A possibilidade de um amor no breu. Cantar ainda é o que nos resta. 

Certa manhã em 2020 acordei com versos de Castro Alves, ecos dum Navio Negreiro, e lembrei de uma história contada por minha tia, irmã mais velha de minha mãe, sobre meu bisavô preto “que odiava preto”. Fiquei imaginando o  sofrimento que é odiar a si mesmo. Imaginei dois homens escravizados num navio negreiro, na possibilidade de uma história de amor entre eles em meio à crueldade e a tortura. Os dois unidos pelo mero desejo de existir, e separados pelo mar da história. 

Dessa rara imagem de amor entre gays escravizados, na recriação da travessia África-Bahia, escolhi lançar ‘Tara Rara’ no dia 13 de Maio. Também como uma maneira de saudar meus bisavôs e meus tataravós. Entre os sons dos tambores e batuques de corpos negros, entre a mais desumana das desumanas das circunstâncias e do destrutivo passado familiar, que nasceram as canções de ‘Tara Rara’. 

Fui compreender o que o racismo provoca na mente de uma pessoa preta somente depois de me mudar pro Canadá em 2002, quando me vi num país anglófono sendo seguido pela viatura da polícia. Ou sempre que rejeitado pelas gays brancas que já em 2002 expressavam sua preferência pelo padrão branco heteronormativo. Foi longe da Bahia, longe dos meus, na ausência da minha cultura, que me vi ainda mais baiano. Passei a entender o sofrimento dos meus pais, e daqueles que deixaram de ser para que eu pudesse existir como o que hoje sou.

Convidei o ritmista Marcelo Costa para os batuques, Bem Gil para o violão, uma orquestra de músicos LGBTQI+, e Vivian Kuczynski para produzir. Foi essa união de três gerações que assegurou a sonoridade de ‘Tara Rara’. Somente uma adolescente gay de 17 anos poderia redirecionar as minhas ideias para um lugar menos óbvio. Gravamos entre Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Toronto e Melbourne. A capa foi feita em Lisboa por Daryan Dornelles. Fiz esse disco, o sexto na minha discografia, com patrocínio financeiro de editais de cultura do Canadá. 

Talvez “Tara Rara” seja o meu álbum mais solar e talvez o mais otimista de todos. No budismo, Tara é uma divindade salvadora que liberta as almas do sofrimento. Ela é reconhecida como um bodhisattva (“essência da iluminação”) a mãe dos budas no budismo esotérico. Curiosamente meu apelido quando criança era buda. Disse para Vivian que “Tara Rara” tinha que ser  um disco Bahia mística de uma gay nostálgica. A gente sai da Bahia, mas a Bahia não sai da gente.

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