Beyoncé – Lemonade

“Beyoncé provou, mais uma vez, que o pop ainda consegue driblar os próprios desgastes e ser interessante.”

“A pessoa mais desrespeitada na América é a mulher negra.

A pessoa mais desprotegida na América é a mulher negra.

A pessoa mais neglicenciada na América é a mulher negra.”

– Malcom X

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O termo “militância” sempre foi bastante desrespeitado na música, em geral.

Letras sobre feminismo, violência de gênero, racismo, homofobia e até política costumam aparecer vez ou outra no repertório de artistas de renome, mas até mesmo entre eles o silenciamento prevalece e, na maioria dos casos, são ofertadas duas cruéis opções: eles podem desistir de continuar cutucando tabus e estigmas sociais para manter as boas aparências e os números crescendo ou, mais dolorosamente, se venderem de vez como mártires e aturar as consequências graves de tal resistência.

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Assim como nós, nossos artistas favoritos querem falar e ser ouvidos, mas nem sempre conseguem ser bem-sucedidos em suas missões, seja por falta de persistência própria ou pressão externa, e acabam se perdendo em suas próprias ideologias. E, em contraste a qualquer personalidade feminina famosa (e negra) que aqui porventura pode ser citada, Beyoncé sempre foi ovacionada como ícone sexual.

Parafraseando o deturpado senso comum, ela “nem é tão negra assim” e, desde os tempos de Destiny’s Child, opta por extensões de cabelo lisas e loiras, preferiu se manter longe das grandes polêmicas e vendeu, sem maiores problemas, um pop mais branco que muitas vezes fez as pessoas esquecerem de onde ela veio. Consequentemente, a hitmaker de Single Ladies enfrentou um processo de branqueamento difícil de ser revertido.

“Ashes to ashes… Dust to side chicks.”

Já aceita pelo grande público, composto pelos mesmos brancos que ainda comandam as premiações de música e ditam quem tem valor ou não nas paradas, Beyoncé pôde ficar calada, jogar conforme as regras e abocanhar alguns Grammys por mérito próprio, mas sem nunca fazer alusão à própria luta ou à luta de seus iguais, para evitar o desconforto coletivo e continuar sendo a prova viva de que negros têm sim valor.

Ou, no caso, só ela.

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Largar o favoritismo, até entre brancos, seria difícil.

Atos políticos são atos de risco, e, mesmo na “era das problematizações”, onde as pessoas são naturalmente críticas e estão evoluindo para uma perspectiva melhor da humanidade, nem sempre dão certo. Beyoncé não é “tão negra assim”, mas não foi exatamente esse discurso que ela usou quando voltou este ano com tudo ao estádio do Super Bowl.

Nariz negroide, cabelo crespo, swag e referências a Jackson 5 foi o que a popstar inofensiva de Crazy In Love escolheu para dar início a seu próximo ambicioso projeto, que só pudemos conferir em sua completude uma semana atrás, num evento especial sediado pela HBO e assistido com um tipo estranho de espanto/admiração por todo o mundo.

A primeira dama da música nos surpreendeu com BEYONCÉ (2013), mas Lemonade é ainda mais “next-level”.

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Por quê ela simplesmente gravaria um álbum, o anunciaria com um single que seria, sem dúvidas, hit certo, estabeleceria um cronograma impecável com datas de lançamento minuciosamente agendadas e abusando de performances promocionais, quando pode muito bem, mandando e desmandando na indústria, transformar todas aquelas exaustivas sessões de estúdio num videoclipe pomposo e extra-longo, com moldes de filme, e ainda zombar, nas entrelinhas, do mesmo processo de aceitação de massa que a favoreceu, mas por outro lado silenciou e apagou sem dó sua ancestralidade, destruindo sua credibilidade no meio que realmente importa?

Estávamos com as guardas baixas, e o sexto arrebatamento de Beyoncé veio sem piedade, cheirando a limões e sem um pingo de condescendência branca. E foi exatamente assim que tudo aconteceu:

CAPÍTULO I – INTUIÇÃO

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Desistindo de vez de esconder sua vulnerabilidade atrás de alter-egos como Sasha Fierce e Yoncé, é com a baladinha Pray You Catch Me que Beyoncé inicia sua jornada de auto-penitência e redescobrimento.

Entre suspiros entrecortados e ecos assombrados a cantora prova que, pelo menos por enquanto, não está pronta para lidar com a própria insegurança. Ela está caindo sem ter ninguém para segurá-la, e nós, sem termos onde apoiar, acabamos indo parar no chão também.

CAPÍTULO II – NEGAÇÃO

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Ao contrário do que muitos pensavam, nem tudo é um mar de rosas para o maior casal da indústria do entretenimento, e se Jay Z pensou que poderia ser infiel sem suportar maiores consequências, é com o ameaçador Hot Sauce – talvez um irmão distante da icônica Lucille – que ele precisará lidar em Hold Up, um reggae preguiçoso que Queen B usa para se reafirmar num relacionamento que, pelo visto, se encontra em frangalhos.

“What’s worst? Looking jealous or crazy?”

Enfim, mostrando que não é do tipo que se arrasta para homem nenhum, Don’t Hurt Yourself termina de expurgar toda a raiva que foi reprimida nas duas primeiras faixas.

Entre gritos de “quem diabos você pensa que eu sou?” e “você não é casada com uma vadia qualquer, garoto!”, Beyoncé dá um aviso claro à Jay Z: se ele continuar pulando a cerca e se fazendo de bobo, vai perder a esposa (e possivelmente levar uma surra de tranças).

Já mencionamos que é o peculiar Jack White quem orquestra o ácido e colérico refrão?

CAPÍTULO III – APATIA

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Trap ainda está em alta, e é neste clima que entramos com Sorry.

Depois de dar seu ultimato ao marido fujão, Beyoncé está decidida a fazer algumas mudanças por conta própria: se ele se diverte, ela também pode fazer o mesmo, e é aqui que atender telefonemas desesperados e ser a esposa exemplar deixam de ser prioridade.

Se Jay Z quer um ombro amigo, é melhor ele ligar para a Rachel Roy Becky do cabelo bom“.

CAPÍTULO IV – VAZIO

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Em 6 Inch, um dos hits óbvios do álbum e talvez sua faceta mais sombria, Bey encarna uma profissional do sexo e passeia sem problemas pelo R&B anestésico do canadense The Weeknd. Ela usa saltos de 15 centímetros, tem todos os olhares voltados para si e garante, toda toda, que vale cada dólar gasto.

“She murdered everybody and I was her witness.”

CAPÍTULO V – ACERTO DE CONTAS

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Negra invadindo a cultura considerada branca? Está tendo também!

Na díspar Daddy Lessons, um passo consideravelmente distante dos ritmos urbanos até então ouvidos, Countryoncé tem um dedo no gatilho e uma Bíblia na mão e está pronta para atirar no primeiro malfeitor que ousar atentar contra seu coração. A rima não foi intencional, prometemos.

CAPÍTULO VI – REFORMA

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Canalizando suas contemporâneas Aaliyah e Brandy, Bey aposta de novo naquele R&B melódico que amamos em Love Drought, que ainda lida com a aflição do ciúme e culpa, mas não passa, no fim, da canção romântica ideal para apaziguar nossos sentimentos conflitantes nesta fase intermediária.

Estamos quase lá.

CAPÍTULO VII – PERDÃO

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Sandcastles é outra balada, daquelas comuns de piano, e a primeira faixa no disco cujo visual dirige-se diretamente ao nosso grande antagonista Jay Z.

Enterrando de vez títulos como Don’t Hurt Yourself e Sorry, Beyoncé quebra promessas e engole o próprio orgulho em nome de um amor que, mesmo imperfeito, é inevitável e tem tanto o poder de dilacerar quanto curar.

Perdoar os erros brutais de alguém amado nunca pareceu uma tarefa tão fácil…

“Every promise don’t work out that way.”

CAPÍTULO VIII – RESSURREIÇÃO

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Cedendo espaço a James Blake, que protagoniza o marcante interlúdio Forward, Beyoncé dá adeus a seu próprio luto e se prepara, enfim, para seguir em frente.

É hora, finalmente, de bradar a plenos pulmões sua verdade.

CAPÍTULO IX – ESPERANÇA

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Cansada de chorar e lutando por um conceito quase tangível de liberdade, Knowles faz de Freedom, a décima faixa e uma parceria com Kendrick Lamar, um épico que, não fosse ele interpretado pela negra embranquecida pela grande mídia, ao lado do rapper militante do ano passado, jamais seria o causador dos nossos calafrios.

E, para quem achou o título deste novo trabalho curioso, engraçado ou só peculiar, é aqui que encontramos a resposta:

“Eu tive meus altos e baixos, mas sempre encontrei força lá dentro para seguir em frente. Eles me deram limões, mas eu fiz limonada.” Hattie White, avó de Jay Z durante discurso em seu 90º aniversário

As palavras de White, recortadas de um contexto maior, são tudo menos específicas: ela não especifica quais foram os momentos insalubres em sua vida que a forçaram a encontrar uma luz em meio à toda a negatividade, mas deixa claro, em curtas sentenças, que só pôde confiar em si mesma.

Ela foi autora única de seu próprio processo de cura.

CAPÍTULO X – REDENÇÃO

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“Como eu senti sua falta, meu amor”, conclui Beyoncé em All Night, a última faixa simbólica de sua bomba áudio-visual que desempenha, em Lemonade, o mesmo papel que XO cumpriu com proeza no disco passado. Abaixem as guardas, irmãos e irmãs, pois “o amor verdadeiro é a arma mais eficaz para encerrar a guerra causada pela dor.”

Beyoncé provou, mais uma vez, que o pop ainda consegue driblar os próprios desgastes e ser interessante.

FORMATION.

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Música responsável por todo o burburinho que tivemos o prazer de acompanhar, como grandes fãs de controvérsias, nos últimos dois meses, Formation é a faixa bônus da vez e, pode-se dizer, o primeiro single da era.

Abusando do swag e das gírias de internet (slay), no emblemático videoclipe, que não faz parte do visual em si mas fecha, com chave de ouro, o ciclo, temos ainda um cerco policial oprimindo, ideologicamente, a cultura afro, Beyoncé de Sinhá norte-americana sulista do século XIX – mas numa Casa Grande, perceba-se, composta unicamente por negros – Blue Ivy, a filha fofuxa da performer, mostrando que cabelo crespo é sim bonito e algo de que se ter orgulho, e de cereja no bolo, ainda muita coreografia.

Formation é, em suma, o que a comunidade negra, em especial suas mulheres, precisavam neste momento: uma dose considerável de empoderamento e representatividade.

Poderíamos dedicar mais dois parágrafos – ou vinte – a uma conclusão decente, confirmando a importância de Lemonade para a auto-estima da mulher negra e para o o gênero mais forte, em geral, mas reconhecendo nossa falta de vivência e posicionamento como Portal de cultura de massa, achamos melhor terminar com um simples:

Ela arrasa.

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Até a próxima destruição, amigos.

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