5 anos de "ARTPOP": como o polêmico álbum de Lady Gaga tornou-se um mártir essencial para a liberdade artística e reconhecimento da cantora hoje

Unir a arte e o pop teve consequências avassaladoras para Lady Gaga.

Depois do grande sucesso da era “Born This Way”, ela estava confiante acerca do seu novo trabalho de estúdio que viria a ser lançado em 2013.

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O material seria a união de estéticas clássicas e modernas da arte, junto da música pop. “ARTPOP” acabou sendo um disco totalmente eletrônico, criado por DJ White Shadow, Zedd e Madeon, produtores que trabalharam nas músicas, 15 no total. Algumas demos já haviam sido gravadas por outros artistas, outras, originais.

Diferente do disco lançado em 2011, a era não ocorreu conforme a cantora havia planejado por diversos motivos: alguns deles foram a sua gravadora, que não deu o suporte necessário em meio ao desempenho morno do trabalho, sua finalização feita apenas há algumas semanas do lançamento em novembro e o escândalo de pedofilia do R. Kelly, que participou da música “Do What U Want” + a polêmica do diretor do clipe cancelado, Terry Richardson acusado de abuso sexual.

 A cobrança interna e externa do sucesso para uma superestrela

“Applause” foi lançada como o primeiro single do material, e a faixa, apresentava tudo o que a artista queria para o álbum. Sabe-se que ela foi a escolha unânime de sua gravadora, a Interscope, para o primeiro single por ser, segundo eles, a música mais radiofônica do trabalho.

O desempenho, morno acabou deixando os empresários preocupados, e a rixa midiática com o lançamento de Katy Perry, “Roar”, só desandou ainda mais as coisas. “Applause” praticamente carregou a era nas costas, como muitos fãs afirmam, e não é pra menos.

A música, sozinha, deu uma boa audiência para Gaga nas rádios, além de que, com a verdadeira “bagunça” na divulgação dos últimos singles, a música foi a única que organizadamente sobreviveu a onda de críticas que Gaga recebeu, sua péssima relação com a gravadora depois disso, a demissão de seu empresário (Troy Carter) e a pressão da imprensa em afirmar que Lady Gaga havia acabado, pressão essa que já vinha do acidente no quadril da cantora, sua cirurgia e o cancelamento das datas restantes da turnê “Born This Way Ball”.

 

O início do fim

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Um pouco antes, a escolha de “VENUS” como o segundo single do disco começou a fazer o álbum desandar. Não estamos falando de gostos pessoais, mas a forma estratégica como isso foi feito. A faixa “Do What U Want” foi lançada logo depois, e seu desempenho comercial melhor nos Estados Unidos acabou fazendo com que o segundo single fosse mudado. “Do What U Want” foi escolhida pelos empresários da Interscope de forma desesperada para “vingar” a era, já que “Applause” não foi #1 na Hot 100 como “Born This Way” em 2011 e a imagem da cantora estava um pouco desgastada. A mudança foi a pior e mais desesperada possível.

A música em parceria com R. Kelly (acusado de pedofilia) e a direção do clipe que nunca viu a luz do dia (dirigido por Terry Richarson, acusado de abuso sexual) foi mais um tiro no pé da cantora que já estava bastante saturada dos mandos e desmandos dos seus empresários. A arte “VENUS” foi substituída pela pressão comercial de um hit (obrigada pela Interscope) para fazer com que o disco rendesse por mais alguns meses através do nome de Gaga no topo das paradas desde 2008. O que não deu certo: o clipe de “Do What U Want” foi cancelado e a era, que já não estava indo bem, foi praticamente engolida por uma chuva de críticas.

O disco era lançado exatamente há cinco anos com várias lacunas em sua divulgação: mesmo com inúmeras performances, o que aconteceu dentro das paredes da Interscope, a pressão da mídia e todo o trabalho sujo dos empresários adoeceu Gaga, que não conseguia mais segurar as lágrimas ao público através da pressão injusta em suas costas.

Ideias ambiciosas também foram deixadas de lado: como o projeto do vestido voador “Volantis” e outros protótipos com a Haus Of Gaga (sua equipe de produção), a performance no espaço em 2015 (junto dos problemas futuros com a nave que iria levá-la), a suposta segunda versão do disco (com algumas demos vazadas na rede como Brookly Nights) e ainda o aplicativo do disco que foi lançado, mas não chegou a receber atualizações e morreu por falta de investimento.

No meio do caminho, se inspirar em grandes artistas plásticos como Jeff Koons, Sandro Botticelli, Gian Lorenzo Bernini e Andy Warhol e apresentar um material totalmente eletrônico lhe trouxe o seu quarto #1 na Billboard, na parada de álbuns mais importante dos Estados Unidos.

No último suspiro de um disco que poderia trazer o frescor e a inovação dos dois conceitos, tinha músicas com potencial de hits e ideias tecnológicas que poderiam dar a Gaga mais um reconhecimento como uma das artistas mais revolucionárias do novo século, “ARTPOP” acabou sendo um mártir na carreira da cantora, mas trouxe lições.

“FUCK YOU POP MUSIC, THIS IS ARTPOP” foi uma das primeiras frases da artista em 2014 em uma apresentação cantando músicas do disco. Gaga estava cheia de ver seu talento colocado em segundo plano apenas para satisfazer e encher o bolso de empresários, que censuraram sua arte e criatividade porque não conseguiam ver hits no disco.

O clipe bancado pela própria cantora – já que as verbas para o disco foram canceladas com o desempenho morno do trabalho – “G.U.Y” foi o último suspiro do disco antes da turnê “artRave”, que fechou a era com um gosto amargo de que algo a mais poderia ter sido feito. A produção adicionou três músicas em uma (ARTPOP, VENUS e G.U.Y), mostrando subliminarmente mais uma vez (desta vez, em um audiovisual-manifesto) o que Gaga passou no final de 2013 com os empresários que não valorizaram seu esforço e trabalho (lhe cobrando hits), a ganância de sua gravadora que não respeitou sua liberdade criativa e a forma como o disco foi jogado no limbo.

Todo mal traz um bem

Tudo isso fez com que o final de 2013 virasse um verdadeiro inferno para Lady Gaga, que entrou em depressão pela somatização: a pressão, sua gravadora e ainda a recepção morna do trabalho, até se encontrar com o convite de Tony Bennett para lançar um disco de Jazz, tirar todas as roupas extravagantes e mostrar ao público pela sua voz que talento é uma coisa que não lhe falta, o que deu certo.

“Cheek To Cheek” chegou ao topo da parada norte-americana e ainda lhe rendeu um Grammy. A partir daí, a imagem da Gaga foi se moldando, junto da aclamação de seu talento ao invés de apenas uma cantora de marketing visual, o lançamento do álbum “Joanne”, um retorno às suas raízes familiares e o filme “A Star Is Born”, que está sendo bastante aclamado e é um dos fortes candidatos ao Oscar 2019.

Aprender com erros pode parecer clichê, mas para Gaga foi essencial. Essencial por mostrar que a cantora pode ser muito mais do que o que apresentou no início de sua carreira como “Lady Gaga” em 2008. Roupas extravagantes, um marketing pesado focado na recepção dos seus trabalhos e a cobrança desumana da Interscope lhe amadureceu como uma musicista pop que provou do sabor amargo do abandono (amigos, empresário, mídia, alguns fãs e gravadora) para poder mostrar a sua essência como artista não desistindo do seu sonho de ser uma popstar, mas do seu jeito a partir de agora.

Deixando para trás seus antigos hits, roupas de carne e o espanto do público através do que vestia, Gaga mostrou nos últimos anos que “ARTPOP” foi sim necessário para que o público visse que uma verdadeira estrela não cai, apenas tomba, e levanta com ainda mais força usando as armas mais poderosas que só um artista verdadeiro pode ter, e que ninguém pode negar, zombar ou lhe tirar isso: o seu talento, versatilidade e o sabor do reconhecimento, seja no Jazz, na música pop com influências Country, no Oscar ou nos cinemas.

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Afinal, já pararam para pensar que se Lady Gaga não tivesse passado por tudo isso provavelmente não iríamos conhecer suas ramificações de talento para o cinema, televisão e outros gêneros musicais quando arriscou após a era?

Um álbum que lhe deixou uma cicatriz que deve ser mostrada com orgulho e nunca ouvido com rancor ou mágoas por ninguém, afinal, se temos uma Gaga aclamada na música e no cinema nos dias de hoje, foi através do que ela aprendeu com as lacunas deixadas pelo “ARTPOP”, a limpeza de imagem, a renovação de sua aura e a exaltação de sua Venus artística: a paixão por cantar e atuar, não importa aonde, e como.

A ARTPOP corre e correrá nas veias de Gaga, em tudo que faz, seja interpretando canções eletrônicas, intimistas ou sendo inspirada pela sétima arte: a frágil, mas esperta Ally de “A Star Is Born”, que ainda lhe renderá muito mais reconhecimento.